Pessoas que consumiam mais cafeína apresentaram menor risco de demência, segundo analisou um novo estudo — Foto: Haengho Lee/Unsplash

Mesmo em dias de calor escaldante, os brasileiros não abrem mão do cafezinho. E esse hábito, quem diria, pode ter relação direta com o bom funcionamento do cérebro a longo prazo. Um estudo publicado na revista Journal of the American Medical Association nesta segunda-feira (9) sugere que pessoas que consomem dois ou três copos diariamente de café ou chá podem apresentar menor risco de demência.

Os pesquisadores analisaram dados de 131.821 voluntários, inscritos em dois grandes estudos de saúde pública dos Estados Unidos: o Estudo de Saúde das Enfermeiras – feito com mais de 86 mil mulheres com média de idade de 46 anos – e o Estudo de Acompanhamento de Profissionais de Saúde – que envolveu mais de 45 mil homens, com 54 anos em média.

Ambos os estudos realizaram avaliações repetidas das dietas dos participantes, diagnósticos de demência, qualquer declínio cognitivo que apresentassem e pontuações em testes cognitivos objetivos por 43 anos, entre 1980 e 2023.

Resultado? Aqueles que consumiam rotineiramente duas a três xícaras de café ou chá com cafeína por dia apresentavam um risco 15 a 20% menor de demência do que aqueles que não consumiam. Além disso, esse grupo também relatou um declínio cognitivo ligeiramente menor e apresentaram melhor desempenho em alguns testes objetivos de função cerebral.

“Não estamos recomendando que pessoas que não bebem café comecem a beber”, observou Yu Zhang, do Mass General Brigham (Estados Unidos), em entrevista à NBC News. “Estamos apenas constatando que, para pessoas que já bebem café, os resultados são realmente tranquilizadores”.

Apesar dos resultados sugerirem que o consumo habitual de café e chá é benéfico para o cérebro, a pesquisa não pôde comprovar isso, uma vez que os consumidores de cafeína podem ser menos propensos à demência por outros motivos.

Com ou sem cafeína?

Mas o que pode explicar essa relação, afinal? O café e o chá contêm cafeína polifenóis que podem proteger contra o envelhecimento cerebral, melhorando a saúde vascular e reduzindo a inflamação e o estresse oxidativo, onde átomos e moléculas nocivas – chamadas radicais livres – danificam células e tecidos. Substâncias presentes nessas bebidas também podem atuar melhorando a saúde metabólica: a cafeína, por exemplo, está associada a menores taxas de diabetes tipo 2, um fator de risco conhecido para demência.

Junto aos dados obtidos a partir dos dois estudos feitos entre 1980 e 2023, a equipe de pesquisadores mediu o consumo de café normal, café descafeinado e chá dos voluntários. Para que essa medição fosse possível, os voluntários responderam questionários sobre a sua alimentação a cada dois ou quatro anos.

Após 37 anos, apenas 11 mil das quase 132 mil pessoas haviam sido diagnosticadas com demência. Como conclusão, os pesquisadores relataram que pessoas que consumiam mais café ou chá com cafeína apresentavam menor probabilidade de desenvolver demência. Essa associação pareceu mais forte entre aquelas pessoas com 75 anos ou menos.

Pessoas que bebiam especificamente café com cafeína tinham um risco 18% menor em comparação com aquelas que bebiam menos. Entre os consumidores de chá, aqueles que consumiam mais a bebida apresentaram um risco 14% menor.

Com base nessas observações, os pesquisadores determinaram o número ideal de xícaras – ou porções de 240 mL – de cada bebida. Os efeitos relacionados à demência e ao declínio cognitivo se estabilizaram com o consumo de duas a três xícaras de café com cafeína ou com uma a duas xícaras de chá com cafeína.

A pesquisa não diz respeito à quaisquer relações entre café e/ou chá descafeinado com demência — Foto: Flickr
A pesquisa não diz respeito à quaisquer relações entre café e/ou chá descafeinado com demência — Foto: Flickr

Além disso, a associação entre o consumo de café e chá com cafeína e o risco de demência se manteve verdadeira para pessoas com alto risco de desenvolver demência, incluindo aquelas com o gene APOE4, um importante fator de risco genético para a doença de Alzheimer.

Ainda assim, Zhang afirmou que a demência é uma condição complexa, que não pode ser totalmente prevenida por intervenção na dieta. “O hábito de beber café, sozinho, não proporciona o efeito mágico que pode prevenir o desenvolvimento de demência”.

Uma xícara de saúde cognitiva

Outra parte do estudo mediu o declínio cognitivo subjetivo e a função cognitiva objetiva dos participantes. Entre os questionários que os voluntários responderam ao longo dos anos, alguns avaliavam a memória, a atenção, a função executiva e as habilidades espaciais.

A partir dos resultados, foi revelado que um maior consumo de café e chá com cafeína está associado a uma menor prevalência de declínio cognitivo subjetivo e a um desempenho ligeiramente melhor.

Cafeína pode ter efeitos tanto benéficos quanto prejudiciais para o cérebro humano. É difícil, por isso, que se tenha clareza quanto aos seus efeitos — Foto: Pexels
Cafeína pode ter efeitos tanto benéficos quanto prejudiciais para o cérebro humano. É difícil, por isso, que se tenha clareza quanto aos seus efeitos — Foto: Pexels

Mesmo com os avanços na área, a nova pesquisa apresenta diversas limitações. Entre as principais lacunas, os pesquisadores sinalizaram a falta de diferenciação entre chá normal e descafeinado. As diferenças entre os tipos de chá, como preto, verde ou branco também não foram analisadas; nem o consumo de energéticos, que podem conter até mais cafeína.

Igualmente ficaram de fora os métodos de preparo do café. Fatores como o nível de torra, a origem do grão e a técnica de preparo

O estudo também não mencionou se as pessoas adicionaram leite, creme, açúcar ou outros adoçantes às suas bebidas. Estudos anteriores, por exemplo, indicam que há uma ligação entre bebidas adoçadas com açúcar e um risco aumentado de comprometimento cognitivo.

De qualquer maneira, o consumo de café e de chá apresenta seus malefícios e benefícios, o importante, segundo Zhang, é não utilizar as bebidas como “escudos mágicos” para uma boa saúde cerebral. “Eu diria que manter um estilo de vida saudável, praticar exercícios regularmente, ter uma dieta equilibrada e dormir bem são fatores importantes para melhorar a saúde do cérebro”, disse, em entrevista ao The Guardian.

(Por Júlia Sardinha)

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