Um registro curioso feito por armadilhas fotográficas na Espanha está chamando a atenção da comunidade científica. Descrito em um novo artigo publicado na revista Ecology, o episódio envolve fêmeas de lince-ibérico (Lynx pardinus), que foram flagradas mergulhando suas presas na água antes de consumi-las. O comportamento, descrito como inédito entre carnívoros, levanta novas questões sobre aprendizado e adaptação entre esses felinos ameaçados.
As imagens foram captadas na região espanhola de Montes de Toledo, e mostram uma fêmea que se aproxima de um bebedouro com a presa na boca e, em vez de iniciar imediatamente a alimentação, submerge o animal na água por alguns segundos. O fenômeno não foi isolado. Entre 2020 e 2025, pesquisadores registraram oito episódios semelhantes envolvendo cinco fêmeas diferentes, em locais distintos.
Embora o hábito e “lavar” alimentos seja conhecido em espécies como primatas, aves e guaxinins, ele costuma estar associado a dietas onívoras ou frugívoras, e, na maioria dos casos, observado em ambientes controlados. Entre carnívoros selvagens, porém, não há registros prévios desse tipo de comportamento. Em geral, a presa é consumida logo após a captura, com pouca ou nenhuma manipulação além do necessário para facilitar a ingestão.
A repetição do comportamento em diferentes indivíduos sugere que pode não se tratar de um acaso. Um dos aspectos é que todos os registros envolvem fêmeas, muitas delas aparentadas ou com territórios sobrepostos.
“Todos os eventos registrados envolveram fêmeas, seja em territórios limítrofes aos de outras fêmeas previamente registradas com esse comportamento, seja em suas descendentes, onde o comportamento foi documentado independentemente”, explicam os autores. Isso levanta a hipótese de transmissão social, um possível indício de cultura animal, ainda que sem evidências diretas de aprendizado por observação.
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Qual as vantagens de se mergulhar a presa?
Ainda não há uma resposta definitiva. Os pesquisadores descartaram, por enquanto, fatores ambientais como calor ou seca, já que não foi identificado um padrão climático associado aos registros. Uma das hipóteses exploradas é que o comportamento possa ajudar na hidratação, especialmente útil durante períodos secos ou na fase de desmame dos filhotes.
“A imersão também levou a uma retenção de água mensurável: após 15 segundos de imersão seguidos de exposição direta à luz solar, a água retida caiu de 1,91% para apenas 0,3% do peso corporal em 20 minutos. Em condições de sombra e com uma imersão mais longa de 30 segundos (semelhante à observada na natureza […]), a água retida diminuiu mais lentamente, de 5,14% para 3,7% após 40 minutos”, explicam os autores.
Eles observam que este foi um experimento exploratório e que são necessários mais estudos para determinar se os linces fazem isso como forma de transportar água.
(Por Carina Gonçalves)



