Uma tomografia computadorizada do mineiro mumificado revelou lesões traumáticas nas costas, costelas, clavículas, omoplatas e ossos dos membros inferiores — Foto: Francisco Garrido e Catalina Morales

Os restos naturalmente mumificados de um homem que viveu há cerca de 1.100 anos no Deserto do Atacama, no norte do Chile, revelam um dos mais antigos acidentes de trabalho já documentados. Um novo estudo do exemplar sugere que o indivíduo provavelmente faleceu após o desabamento de rochas em uma mina subterrânea de turquesa. A conclusão foi divulgada em artigo científico publicado em 15 de dezembro no periódico International Journal of Osteoarchaeology.

Seu corpo foi encontrado originalmente na década de 1970, próximo a uma antiga mina pré-hispânica na região da atual cidade de El Salvador. Embora uma fratura visível na perna esquerda já sugerisse um possível acidente, apenas uma análise completa realizada décadas depois, em 2023, permitiu reconstruir com maior precisão as circunstâncias da morte e confirmar a violência do episódio.

Evidências de um impacto fatal

No estudo, os arqueólogos Catalina Morales e Francisco Garrido, do Museu Nacional de História Natural de Santiago, utilizaram tomografias computadorizadas e radiografias para examinar o esqueleto da múmia. Os exames revelaram múltiplas fraturas não consolidadas na coluna vertebral superior, além de lesões nas costelas, na escápula e na clavícula.

O padrão dos ferimentos indica impacto contundente de grande intensidade concentrado na parte superior esquerda das costas. Esse choque deslocou vértebras, causou o colapso da caixa torácica e resultou em uma fratura adicional próxima à base da coluna. Lesões desse tipo costumam ser associadas a danos graves na medula espinhal e apresentam alta taxa de mortalidade.

Curiosamente, não foram encontradas fraturas no crânio, no pescoço ou nos braços. Isso sugere que o homem pode ter sido atingido enquanto estava inclinado ou de cabeça para baixo, possivelmente tentando proteger a cabeça no momento do desabamento.

Um trabalhador dos Andes pré-incaicos

A análise antropológica indica que o homem tinha entre 25 e 40 anos quando morreu. A datação por carbono situa sua vida entre 894 e 1016 d.C., no início do chamado Período Intermediário Tardio nos Andes centrais. Essa fase histórica foi marcada pelo declínio do Império Wari, que antecedeu a ascensão do Império Inca.

Junto ao corpo, os arqueólogos encontraram objetos funerários, como arco e flechas e um kit para rapé de substâncias alucinógenas, elementos que ajudam a contextualizar culturalmente o indivíduo. Para os autores, é provável que ele fosse um mineiro que utilizava ferramentas simples, sem qualquer tipo de proteção.

“É provável que o mineiro tenha entrado na mina e usado martelos de pedra para extrair turquesa da rocha circundante”, apontam Morales e Garrido, em entrevista ao portal Live Science. “Em caso de desabamento de rochas, não havia nenhum tipo de proteção.”

Uma vista lateral dos ossos da múmia mostra sua coluna vertebral gravemente deslocada e a fratura na parte inferior da perna — Foto: Francisco Garrido e Catalina Morales
Uma vista lateral dos ossos da múmia mostra sua coluna vertebral gravemente deslocada e a fratura na parte inferior da perna — Foto: Francisco Garrido e Catalina Morales

A extração de turquesa no Deserto do Atacama foi praticada por cerca de dois milênios. Em geral, as minas eram rasas e a céu aberto, o que reduzia a necessidade de estruturas subterrâneas. A mina próxima a El Salvador, porém, era uma exceção, pois possuía galerias escavadas, aumentando significativamente os riscos de acidentes.

Os pesquisadores explicam que os mineiros usavam pás de madeira e pedra, cestos e martelos rudimentares para retirar a turquesa, que depois era transformada em contas no acampamento e comercializada ao longo de extensas rotas pré-hispânicas. Nesse contexto, um desabamento do teto da mina, como o sugerido pelas lesões, teria sido fatal.

“Considerando o contexto arqueológico, é provável que esse indivíduo tenha morrido enquanto extraía turquesa, quando uma rocha caiu sobre suas costas”, escreveram os especialistas no estudo. Eles ressaltam, no entanto, que novas pesquisas ainda são necessárias para compreender melhor as condições de vida e de trabalho dos antigos mineiros da região.

(Por Arthur Almeida)

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