Reconstrução da múmia de Ötzi, exibida no Museu de Pré-História de Quinson, Alpes-de-Haute-Provence, França. Ele viveu há 5300 anos e foi achado no gelo — Foto: Wikimedia Commons

 

Uma nova análise de dados genômicos de múmias achadas no gelo, feita por brasileiros, revelou que elas estavam infectadas pelo papilomavírus humano tipo 16 (HPV16). A linhagem atual do vírus, transmitida sexualmente via contato com a pele, pode ser responsável por causar câncer.

As duas múmias analisadas foram Ötzi, o Homem de Gelo, que viveu há cerca de 5.300 anos nos Alpes e foi desenterrado do solo gelado, e o Homem de Ust’-Ishim, que habitou a Sibéria há aproximadamente 45 mil anos. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) analisaram mais de 5,7 bilhões de leituras de sequenciamento genético recolhidas a partir dos restos mortais.

“Investigamos se vírus associados ao câncer já circulavam entre os humanos pré-históricos e encontramos fragmentos inequívocos de HPV16 em ambos”, afirma o professor Marcelo Briones, do Centro de Bioinformática Médica da Unifesp, um dos autores do estudo, ao site Live Science.

Os resultados aparecem em um estudo brasileiro que ainda não foi revisado por cientistas independentes, mas que já está disponível desde dezembro na plataforma bioRxiv.

Identificação do vírus em DNA antigo

A equipe aplicou uma combinação de técnicas avançadas de laboratório, como a triagem taxonômica e o mapeamento direcionado contra genomas virais de referência. Entre diversos tipos de HPV testados, a variante HPV16 se destacou de forma consistente, concentrando a maior parte das leituras mapeadas tanto em Ötzi quanto em Ust’-Ishim.

No caso de Ötzi, foi possível reconstruir cerca de 94% do genoma viral, com forte afinidade à sublinhagem HPV16A1, hoje predominante na Europa. Já na múmia siberiano, cuja preservação é mais limitada, os fragmentos recuperados indicam proximidade com a sublinhagem HPV16A4, associada a populações eurasiáticas antigas.

“Esses padrões são biologicamente coerentes com a história das migrações humanas”, explicou Briones, destacando que as linhagens identificadas correspondem às regiões onde esses indivíduos viveram.

Outro elemento central do estudo foi a confirmação da autenticidade do material viral. Os fragmentos de HPV apresentaram marcas químicas típicas de DNA antigo, como alterações específicas nas extremidades das sequências, o que reforça que não se trata de “contaminação moderna”. “As assinaturas de degradação observadas são compatíveis com moléculas virais preservadas por milhares de anos”, afirma o pesquisador.

Implicações para a origem do HPV

A presença do HPV16 em humanos que viveram há pelo menos 45 mil anos tem implicações diretas para o debate sobre a origem do vírus. Modelos evolutivos anteriores sugeriam que a principal linhagem oncogênica do HPV poderia ter sido introduzida no Homo sapiens por meio do cruzamento com neandertais. Os novos dados, porém, indicam que o HPV16 já circulava entre humanos modernos durante o Paleolítico Superior.

“Nossos resultados sugerem que o HPV16 é um companheiro antigo da nossa espécie, provavelmente presente antes mesmo das grandes dispersões humanas para fora da África”, destaca Briones. Segundo ele, isso reforça a ideia de uma coevolução prolongada entre papilomavírus e seus hospedeiros humanos, em vez de uma aquisição recente por transmissão entre espécies humanas distintas.

Embora o estudo não avalie se o vírus estava ativo ou causava doença nesses indivíduos, os autores destacam que novas análises poderão investigar se o HPV estava integrado ao genoma humano ou presente de forma independente. Por ora, a descoberta já amplia de forma significativa o horizonte temporal conhecido de um dos vírus mais relevantes para a saúde humana contemporânea.

(Por Arthur Almeida)

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