Filhote de lobo Tumat-1 encontrado bem-preservado na Sibéria — Foto: Mietje Germonpré

A última refeição de um filhote de lobo da Era do Gelo ajudou cientistas a reconstituir parte crucial da história evolutiva de um dos grandes mamíferos extintos do planeta: o rinoceronte-lanudo (Coelodonta antiquitatis). Pesquisadores da Universidade de Estocolmo e do Museu Sueco de História Natural conseguiram sequenciar o genoma completo de um exemplar que viveu há cerca de 14,4 mil anos, a partir de um fragmento de tecido muscular preservado no estômago do pequeno predador, encontrado no solo gelado (permafrost) da Sibéria.

“O sequenciamento completo do genoma de um animal da Era do Gelo encontrado no estômago de outra espécie nunca havia sido feito antes”, observa Camilo Chacón-Duque, um dos autores do estudo, em comunicado à imprensa. Detalhes do achado foram compartilhados em um artigo científico publicado nessa quarta-feira (14) na revista Genome Biology and Evolution.

Uma fonte de DNA tão rara quanto valiosa

O material genético analisado veio dos restos mumificados de um filhote de lobo conhecido como Tumat-1, descoberto em 2011 próximo à vila de Tumat, no nordeste da Sibéria. Durante a necrópsia do exemplar, os pesquisadores identificaram um pequeno fragmento de tecido preservado em seu estômago — vestígio de sua última refeição.

A datação por radiocarbono indicou que o tecido tinha aproximadamente 14,4 mil anos, e análises posteriores confirmaram que se tratava de carne de rinoceronte-lanudo. Além de raro, o espécime é um dos mais jovens já encontrados dessa espécie, o que o torna particularmente relevante para investigar o período imediatamente anterior à extinção.

Ilustração de um rinoceronte lanudo, extinto no final da última Era do Gelo — Foto: Benjamin Langlois/Wikimedia Commons
Ilustração de um rinoceronte lanudo, extinto no final da última Era do Gelo — Foto: Benjamin Langlois/Wikimedia Commons

“Recuperar genomas de indivíduos que viveram pouco antes da extinção é um desafio, mas pode fornecer pistas importantes sobre o que causou o desaparecimento da espécie”, explica Chacón-Duque. Ele ressalta que esse tipo de pesquisa também pode ter implicações para a conservação de espécies ameaçadas atualmente.

O desafio técnico foi considerável. O DNA antigo costuma estar altamente fragmentado e presente em quantidades mínimas, e, nesse caso, ainda havia o fator complicador da mistura com o DNA do próprio lobo. “Extrair um genoma completo de uma amostra tão incomum foi uma tarefa emocionante, mas também muito desafiadora”, lembra Sólveig Guðjónsdóttir, autora principal do estudo.

Estabilidade genética até o fim

Para entender o que o genoma poderia revelar sobre o destino do rinoceronte-lanudo, a equipe comparou o DNA do animal de Tumat com outros dois genomas de alta qualidade, obtidos de espécimes datados de cerca de 18 e 49 mil anos atrás. A análise permitiu avaliar mudanças ao longo do tempo na diversidade genética, nos níveis de endogamia e na presença de mutações potencialmente prejudiciais durante a última Era Glacial.

O resultado surpreendeu os pesquisadores. Não foram encontrados sinais de deterioração genética progressiva à medida que a espécie se aproximava da extinção. Os três indivíduos apresentavam níveis semelhantes de diversidade genética e endogamia, sugerindo que os rinocerontes-lanudos mantiveram populações relativamente grandes e saudáveis até pouco antes de desaparecerem.

“Nossas análises mostraram um padrão genético surpreendentemente estável, sem nenhuma mudança nos níveis de endogamia ao longo de dezenas de milhares de anos antes da extinção”, afirmou Edana Lord, outra colaboradora do projeto. Como lembra o portal Live Science, esse cenário contrasta com o de outros grandes mamíferos da Era do Gelo, como o mamute-lanoso, cujas populações finais apresentavam sinais claros de isolamento e endogamia, que podem ter contribuído para seu colapso.

Extinção rápida

A ausência de indícios de um declínio genético gradual levou os cientistas a concluir que a extinção do rinoceronte-lanudo ocorreu de forma relativamente rápida. De acordo com os autores, o fator mais provável foi o aquecimento climático abrupto no final do Pleistoceno, especialmente durante o período conhecido como interestadial de Bølling-Allerød, entre cerca de 14,7 e 12,9 mil anos atrás, quando as temperaturas do Hemisfério Norte aumentaram de maneira acentuada.

“Nossos resultados mostram que os rinocerontes-lanudos mantiveram uma população viável por cerca de 15 mil anos após a chegada dos primeiros humanos ao nordeste da Sibéria”, aponta o coautor Love Dalén. “Isso sugere que sua extinção foi causada pelo aquecimento climático, não pela caça humana.”

Pedaço de tecido de rinoceronte lanoso encontrado no estômago do filhote Tumat-1. Observe que as pequenas marcas de corte são da coleta de DNA realizada no Centro de Paleogenética de Estocolmo em 2020 — Foto: Love Dalén
Pedaço de tecido de rinoceronte lanoso encontrado no estômago do filhote Tumat-1. Observe que as pequenas marcas de corte são da coleta de DNA realizada no Centro de Paleogenética de Estocolmo em 2020 — Foto: Love Dalén

O aquecimento rápido teria alterado profundamente a vegetação das estepes frias das quais o rinoceronte-lanudo dependia. Isso reduziu a disponibilidade de alimento para o herbívoro, que era altamente especializado em ambientes gelados.

Embora o novo genoma não resolva todos os mistérios sobre a extinção da espécie, os pesquisadores destacam que o trabalho demonstra o potencial de explorar “fontes improváveis” de DNA antigo. “Esperamos que essa conquista abra caminho para futuras análises genéticas a partir de materiais que, até pouco tempo atrás, seriam considerados inviáveis”, avalia Guðjónsdóttir.

(Por Arthur Almeida)

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