Um sepultamento anglo-saxão de caráter excepcional, classificado por arqueólogos como “principesco” pelo seu caráter nobre, foi identificado durante escavações preventivas que antecedem a construção da usina nuclear Sizewell C, no leste da Inglaterra.
O conjunto funerário, datado entre os séculos 6 e 7, destaca-se tanto pela riqueza simbólica quanto pelo estado singular de preservação, oferecendo um retrato raro das práticas rituais e das hierarquias sociais do início da Idade Média.
As condições do solo arenoso e ácido impediram a conservação tradicional dos ossos, mas produziram um efeito bastante incomum. No lugar de esqueletos intactos, surgiram silhuetas de areia extremamente detalhadas, que registram com precisão os contornos corporais, a posição dos membros e a disposição dos objetos depositados na cova – no caso, um cavalo de aproximadamente 1,4 metro de altura e dois humanos, um adulto e uma criança.
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Em comunicado publicado em 13 de janeiro, arqueólogos da Oxford Cotswold Archaeology (OCA) dizem que esse tipo de preservação permite observar gestos funerários e relações espaciais que, em muitos casos, se perdem mesmo quando os ossos sobrevivem. O túmulo integrava um pequeno conjunto de montes funerários anglo-saxões e continha um enxoval composto por armas, arreios completos, recipientes de metal precioso e contas de vidro.
Segundo Len Middleton, arqueólogo da OCA e diretor do projeto, o sepultamento se insere em uma tradição funerária restrita a grupos de altíssimo prestígio. “Trata-se da mesma tradição de elite vista em Sutton Hoo, Snape e Prittlewell”, afirma à BBC. Para ele, o achado “é de importância nacional” justamente por ampliar o entendimento sobre como o poder e a identidade eram expressos no início da Idade Média inglesa, especialmente nas comunidades costeiras da Ânglia Oriental.
Pistas sobre a civilização antiga
Nas proximidades do achado, a equipe escavou um grande cemitério com mais de 140 sepulturas, também anglo-saxônicas, cuidadosamente organizadas e alinhadas no sentido leste-oeste. A disposição regular das covas, respeitando-se mutuamente, sugere planejamento coletivo e normas funerárias bem estabelecidas.
A escavação revelou ainda uma estrutura enigmática associada a um buraco de poste, imediatamente ao sul do cemitério. Sem materiais datáveis até o momento, sua função permanece incerta, levantando a hipótese de uma construção relacionada às práticas funerárias ou a uma ocupação anterior do espaço.
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Entre os achados mais notáveis do sítio está uma escada pré-histórica de madeira, preservada com degraus originais e ainda conectada a um poço d’água. A estrutura foi cuidadosamente escorada com o objetivo de evitar o colapso das paredes e a contaminação da fonte, evidenciando um conhecimento técnico sofisticado.
Diferentemente da maioria das escadas pré-históricas conhecidas, geralmente talhadas em um único tronco, esta foi construída com travessas de carvalho trabalhadas individualmente. As superfícies da madeira conservam marcas claras de ferramentas, incluindo impressões deixadas por um machado plano, cuja identificação foi possível graças à nitidez dos vestígios.
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O período romano também está amplamente representado. Um forno de cerâmica do tipo de tiragem horizontal foi encontrado em estado de conservação incomum, com uma chaminé intacta e o revestimento interno das paredes praticamente preservado. Fragmentos de cerâmica fina, associados ao forno e depositados em seu interior após o abandono da estrutura, estão sendo analisados para datação e caracterização da produção local.
Outro destaque é um secador de milho romano de formato labiríntico, com câmara central e uma chaminé em laço que redistribuía o calor por corredores ramificados. A escavação identificou diferentes fases construtivas, incluindo o reposicionamento da chaminé e a substituição de pisos, além de indícios de uma superestrutura sustentada por postes. Esses elementos apontam para um uso prolongado e para a importância contínua da atividade agrícola e industrial na área.
Um registro contínuo da ocupação humana
De acordo com a equipe da OCA, o conjunto das descobertas reformula a compreensão sobre como sucessivas comunidades utilizaram essa paisagem costeira ao longo de milênios, desde a pré-história até a Idade Média. A escavação se destaca não apenas pela quantidade de achados, mas pela qualidade e diversidade dos contextos preservados, que permitem observar práticas cotidianas, industriais e rituais em um mesmo território.
A relevância ampla do sítio é enfatizada por Rosanna Price, gerente de engajamento arqueológico da organização, que acompanha de perto os trabalhos de campo. “Toda a vida humana, desde os conflitos a questões domésticas, da alimentação aos cuidados pessoais e à morte, está tudo ali, exposto”, ela destaca, à BBC.
Parte desse material será apresentada ao público em exposições e em programas especializados. Até lá, os estudos continuarão a aprofundar o conhecimento sobre a região e seus antigos ocupantes.
(Por Arthur Almeida)

