Processo de aspiração da areia presente sobre o navio naufragado para escavação arqueológica do achado — Foto: Viking Ship Museum

Durante seis séculos, as águas frias ao largo de Copenhague esconderam um dos mais impressionantes testemunhos da navegação medieval. Agora, arqueólogos marítimos do Museu do Navio Viking, na Dinamarca, anunciaram a descoberta do maior exemplar de uma coca — navio de carga — já identificado no mundo. Datada de cerca de 1410, Svælget 2 não apenas redefine o tamanho máximo conhecido desse tipo de navio, como também oferece um retrato inédito da vida a bordo e das redes comerciais que sustentaram a economia do norte da Europa na Baixa Idade Média.

A descoberta ocorreu no estreito de Øresund, entre a Dinamarca e a Suécia, durante investigações arqueológicas subaquáticas relacionadas às obras do novo bairro artificial de Lynetteholm, em Copenhague. Logo nos primeiros mergulhos, os pesquisadores perceberam que se tratava de algo fora do comum.

Conforme séculos de areia e lodo eram removidos, emergia o contorno de um naufrágio extraordinariamente grande e bem preservado. “A descoberta é um marco para a arqueologia marítima. Trata-se da maior coca que conhecemos e nos dá uma oportunidade única de compreender tanto a construção quanto a vida a bordo dos maiores navios mercantes da Idade Média”, afirma o arqueólogo Otto Uldum, líder da escavação, em comunicado publicado no dia 28 de dezembro.

Supernavio do século 15

O Svælget 2 mede cerca de 28 metros de comprimento por nove metros de largura e seis metros de altura, com uma capacidade de carga estimada em aproximadamente 300 toneladas. Para os padrões do início do século 15, trata-se de um verdadeiro colosso.

Segundo os especialistas, um navio desse porte só poderia existir em uma sociedade com estruturas comerciais bem estabelecidas. Apenas uma rede madura seria capaz de financiar, construir e operar embarcações de grande escala.

As cocas eram consideradas os “supernavios” de sua época. Desenvolvidas na região do Mar do Norte, revolucionaram o comércio ao permitir o transporte eficiente e relativamente barato de grandes volumes de mercadorias comuns, como sal, madeira, tijolos e alimentos básicos, e não apenas bens de luxo.

Com tripulações surpreendentemente pequenas, essas embarcações conectavam os Países Baixos ao Mar Báltico, contornando o perigoso cabo de Skagen e atravessando o Øresund. “A coca revolucionou o comércio no norte da Europa. Tornou possível o transporte de mercadorias em uma escala nunca antes vista”, explica Uldum.

Preservação sem precedentes

análise dendrocronológica — método que estuda os anéis de crescimento das árvores das quais a madeira foi extraída — revelou que o Svælget 2 foi construído por volta de 1410. As tábuas do seu casco são feitas de carvalho proveniente da Pomerânia, região que hoje integra a Polônia, enquanto as cavernas (as “costelas” do navio) foram cortadas na Holanda.

Esse padrão indica que a embarcação foi construída nos Países Baixos, combinando madeira importada e recursos locais, um reflexo direto das extensas redes comerciais da época. “Isso nos sugere que grandes quantidades de madeira circulavam pelo norte da Europa e que existia conhecimento técnico concentrado em determinados centros navais”, aponta o pesquisador.

O estado de conservação do Svælget 2 é considerado excepcional. O naufrágio repousava a cerca de 12 a 13 metros de profundidade, protegido por uma espessa camada de areia e lodo que preservou todo o lado estibordo do navio, da quilha à borda.

Nessa área, os arqueólogos ainda encontraram vestígios raríssimos das cordas e cabos essenciais para controlar as velas, os mastros e a carga do navio. “Nunca vimos tantas peças de cordame preservadas”, lembra Uldum. “Isso nos permite dizer algo completamente novo sobre como essas grandes cocas eram equipadas para navegar”, afirma Uldum.”

Vida a bordo

Entre as descobertas mais significativas está a primeira comprovação arqueológica dos chamados castelos de proa e popa — estruturas elevadas de madeira amplamente representadas em ilustrações medievais, mas, até então, nunca confirmadas fisicamente. No Svælget 2, os pesquisadores identificaram extensos restos de um castelo de popa, um convés coberto que oferecia abrigo à tripulação.

Outra surpresa foi o achado de uma cozinha construída em tijolos, o exemplo mais antigo desse tipo encontrado em águas dinamarquesas. Composta por cerca de 200 tijolos e 15 telhas, a estrutura permitia cozinhar em fogo aberto. Nas proximidades, foram encontrados utensílios de bronze, tigelas de cerâmica, pratos de madeira pintados e restos de peixe e carne, evidências de refeições quentes a bordo — um conforto considerável para a época.

Uma coleção de objetos pessoais, que inclui sapatos, pentes e contas de rosário, completa o quadro da vida cotidiana dos marinheiros. “Esses itens mostram que a tripulação levava consigo sua vida em terra para o mar”, observa Uldum. Veja imagens capturadas no local:

Apesar de sua enorme capacidade, nenhum vestígio da carga transportada foi encontrado. Segundo os arqueólogos, isso se explica pelo fato de o porão não ser coberto: barris, fardos ou madeira teriam flutuado e se dispersado no momento do naufrágio. A ausência de armamentos ou danos relacionados a combate indica que o Svælget 2 era exclusivamente um navio mercante.

“Talvez esta descoberta não mude a história que já conhecemos. Mas agora sabemos, de forma inegável, que navios desse tipo podiam atingir esse tamanho extremo”, destaca Uldum. “O Svælget 2 é uma peça concreta que nos ajuda a compreender como tecnologia, comércio e sociedade evoluíram juntos na Idade Média.”

(Por Arthur Almeida)

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