Registros escritos sugerem que legiões romanas avançaram profundamente pelo território que hoje corresponde à Alemanha durante séculos. No entanto, faltavam provas materiais capazes de confirmar essas incursões. Agora, uma série de descobertas arqueológicas na Saxônia-Anhalt pode mudar esse cenário: arqueólogos identificaram quatro acampamentos militares romanos, datados de cerca de 1,7 mil anos.
Os acampamentos remontam ao século 3, marcado por intensas campanhas militares romanas e por uma crise interna no Império. Naquele período, Roma buscava expandir suas fronteiras ao norte, avançando em direção ao rio Elba. Mas, a resistência das tribos germânicas dificultou uma ocupação duradoura da região.
Segundo o Escritório Estadual de Gestão do Patrimônio e Arqueologia da Saxônia-Anhalt, os vestígios encontrados correspondem a acampamentos de marcha, estruturas temporárias erguidas durante deslocamentos militares. Em comunicado, os arqueólogos afirmaram que “os acampamentos romanos eram instalações altamente padronizadas”, com formato retangular, cantos arredondados e um sistema interno de ruas.
Dois dos acampamentos foram localizados nas proximidades da cidade de Aken e, um terceiro, perto de Deersheim. Já o quarto acampamento foi encontrado no município de Trabitz. As descobertas resultaram da combinação de imagens de satélite, fotografias aéreas, levantamentos de campo, escavações e do trabalho conjunto de arqueólogos profissionais e voluntários.
Romanos na Alemanha
Junto dos acampamentos, foram encontrados uma série artefatos. Entre os achados mais relevantes estão moedas datadas da segunda metade do século 2 e do início do século 3. As peças, examinadas com técnicas de datações por radiocarbono, permitiram estabelecer com maior precisão a idade dos acampamentos.
Em Trabitz, uma moeda em especial chamou a atenção dos pesquisadores: um denário do imperador Caracalla. “É, portanto, possível que o acampamento tenha sido estabelecido em conexão com uma campanha sob o comando de Caracalla em 213 d.C.”, afirma o comunicado. Fontes históricas indicam que essa campanha teve como alvo um grupo conhecido como “albaneses”, possivelmente habitantes das margens do rio Elba.
Caso essa associação seja confirmada, a descoberta poderá alterar interpretações históricas consolidadas. Até agora, muitos estudiosos acreditavam que as campanhas de Caracalla se limitaram às proximidades com a fronteira fortificada do Império Romano.
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Além disso, os arqueólogos também identificaram elementos característicos dos acampamentos militares. Entre os elementos identificados está o “titulum”, um segmento de vala defensiva construído diante dos portões do acampamento para dificultar ataques inimigos. Esse detalhe arquitetônico, visível em imagens aéreas, foi decisivo para diferenciar os acampamentos romanos de outras estruturas históricas ou pré-históricas.
Uma nova fronteira
Os acampamentos identificados na Saxônia-Anhalt são, até o momento, os mais ao nordeste já registrados na região. Para os pesquisadores, isso representa uma evidência inédita dos movimentos das tropas romanas em locais onde, até então, quase não havia provas materiais de sua presença.
As escavações realizadas entre 2024 e 2025 confirmaram a natureza romana das estruturas, revelando valas em formato de “V”, típicas da engenharia militar do Império. As dimensões semelhantes entre alguns dos acampamentos sugerem que eles podem ter sido utilizados durante a mesma campanha ou em um curto intervalo de tempo.
Mesmo após quase dois milênios, os vestígios deixados por pregos, moedas e valas continuam a contar uma história de avanço, conflito e adaptação. À medida que as pesquisas prosseguem, os arqueólogos esperam lançar nova luz sobre a atuação romana no interior da Alemanha.
(Por Júlia Sardinha)

