Um pedaço de pau afiado de 81 centímetros de comprimento foi encontrado entre os ossos de um elefante abatido — Foto: K. Harvati

Uma vara de madeira afiada, abandonada às margens de um lago há cerca de 430 mil anos, está redefinindo a história da tecnologia humana. Escavada no sul da Grécia, a peça é considerada hoje a ferramenta portátil de madeira mais antiga já identificada por arqueólogos — ao que tudo indica, ela foi utilizada durante o esquartejamento de um elefante de presas retas, um dos maiores animais da Eurásia pré-histórica.

O objeto, com cerca de 81 cm de comprimento, foi encontrado no sítio arqueológico Marathousa 1, onde costumava ser a margem lamacenta de um lago frequentado por elefantes, hipopótamos, tartarugas, aves e grandes predadores. Ali, um grupo de hominíneos (provavelmente ancestrais dos neandertais ou Homo heidelbergensis) desmantelava a carcaça de um elefante quando alguém deixou cair a ferramenta de madeira, talvez em meio à disputa com outros carniceiros atraídos pelo sangue.

A descoberta foi descrita em um artigo publicado nessa segunda-feira (26) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences e repercutiu amplamente por revelar evidências diretas de tecnologia feita de materiais orgânicos, que normalmente apodrecem e desaparecem do registro arqueológico.

“Diferenciar um galho qualquer de uma ferramenta de madeira é muito mais difícil do que identificar uma lasca de pedra”, lembra a paleoantropóloga Katerina Harvati, pesquisadora da Universidade de Tübingen e líder do estudo, em à revista Science.

Marcas inequívocas de fabricação humana

Análises microscópicas e tomografias computadorizadas mostraram que a vara foi deliberadamente modificada, com galhos removidos, casca raspada e uma extremidade cuidadosamente afiada com lâminas de pedra. Os pesquisadores examinaram 144 fragmentos de madeira do sítio e apenas dois apresentavam marcas claras de trabalho humano.

Esta vara de escavação, feita de um amieiro há 430.000 anos, está entre as ferramentas manuais de madeira mais antigas já encontradas — Foto: Katerina Harvati e Dimitris Michailidis
Esta vara de escavação, feita de um amieiro há 430.000 anos, está entre as ferramentas manuais de madeira mais antigas já encontradas — Foto: Katerina Harvati e Dimitris Michailidis

Para além da vara longa, um pequeno artefato de menos de oito centímetros, feito de salgueiro, também foi identificado, embora sua função permaneça desconhecida. O contexto em que a ferramenta maior foi encontrada reforça sua importância. Ela estava literalmente misturada aos ossos do elefante abatido, junto de instrumentos de pedra usados para destrinchar animais.

Isso sugere que a madeira pode ter servido para cavar, raspar carne, deslocar partes da carcaça ou até afastar predadores, como leões, ursos ou felinos semelhantes a guepardos, que rondavam o local — um tronco próximo, marcado por garras, indica a presença desses animais. Por mais que seja difícil afirmar se a ferramenta foi realmente usada para matar o elefante ou apenas para processar o corpo, seu papel na exploração do animal parece indiscutível.

Tecnologia antiga e sofisticada

Até recentemente, acreditava-se que o uso sistemático de madeira como ferramenta na Europa fosse relativamente tardio. Mas as novas evidências empurram essa linha do tempo para centenas de milhares de anos antes da chegada do Homo sapiens ao continente, que aconteceu há cerca de 210 mil anos, segundo os fósseis mais antigos encontrados na própria Grécia.

A segunda ferramenta tem menos de oito centímetros de comprimento e foi feita de um tronco de salgueiro. Sua finalidade é desconhecida. Aqui, ela é vista de quatro ângulos — Foto: Katerina Harvati e Dimitris Michailidis
A segunda ferramenta tem menos de oito centímetros de comprimento e foi feita de um tronco de salgueiro. Sua finalidade é desconhecida. Aqui, ela é vista de quatro ângulos — Foto: Katerina Harvati e Dimitris Michailidis

O achado de Marathousa se soma a outras descobertas recentes que estão obrigando a arqueologia a “reescrever sua própria história”, como observa o jornal The New York Times. Em 2019, troncos de madeira entalhados com quase 480 mil anos foram identificados em Kalambo Falls, na Zâmbia, possivelmente parte de uma estrutura habitacional.

Já no Reino Unido, um martelo feito de osso de elefante ou mamute, com cerca de 500 mil anos, foi reconhecido apenas décadas após sua escavação no sítio de Boxgrove, no sul da Inglaterra. Esse martelo ósseo, descrito em um estudo publicado em 21 de janeiro na Science Advances, apresenta entalhes e lascas de sílex incrustadas, evidenciando seu uso repetido para talhar ferramentas de pedra.

Vislumbre de um mundo perdido

A raridade de ferramentas de madeira não reflete sua pouca importância, mas sim sua fragilidade. Os novos achados sugerem que tecnologias de madeira podem ter sido comuns muito antes do que se imaginava, especialmente entre neandertais e seus ancestrais.

No caso de Marathousa, a preservação excepcional se deve ao solo encharcado e ao rápido soterramento dos objetos a cerca de 30 metros de profundidade. O ambiente, embora situado em plena era glacial, funcionava como um refúgio temperado, cercado por geleiras distantes e repleto de espécies que mais tarde desapareceriam da Europa, destaca a Science News.

Para os pesquisadores, a vara esquecida junto ao elefante não é apenas um instrumento antigo: é um raro testemunho da inteligência, adaptabilidade e engenho de humanos arcaicos. “Essas descobertas nos dão uma janela para as origens pré-históricas da cognição humana”, aponta Harvati.

(Por Arthur Almeida)

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