A cabeça do adolescente, mostrando traumatismos faciais, com uma reconstrução da calota craniana, tal como exibida atualmente (à esquerda). A mesma área após a escavação (à direita) — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.

Durante o Paleolítico Superior, os seres humanos eram caçadores experientes, capazes de abater animais de grande porte. Mas especialistas sugerem que a convivência diária com predadores selvagens, como ursos, leopardos e leões-das-cavernas, também tornava os agrupamentos hominídeos bastante vulneráveis a encontros fatais.

Tal especulação baseia-se em algumas evidências funerárias do período, as quais costumam ser bastante raras, já que, na época, os mortos não eram enterrados e os corpos deixados no ambiente costumavam ser consumidos ou dispersos, apagando os sinais da violência. Um dos exemplares conservados mais conhecidos nesse sentido é “Il Principe”, um adolescente que data de 27 mil anos atrás.

Localizado originalmente em 1942, na caverna de Arene Candide, no norte da Itália, o jovem foi enterrado com um aparato funerário excepcional, preservando um esqueleto quase completo. Ao longo de quase um século, ele tem sido estudado por diversas equipes de pesquisadores, que tentam desvendar como esse indivíduo viveu na Terra pré-histórica e, principalmente, de que forma ele morreu.

A: Localização geográfica de Arene Candide, no norte da Itália, com a região da Ligúria destacada em vermelho. B: Vista zenital do túmulo “Il Principe”, conforme exibido no Museo di Archeologia Ligure, em Gênova Pegli. O modelo fotogramétrico foi criado para este estudo. C: Vista do salão oriental da caverna Arene Candide — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.
A: Localização geográfica de Arene Candide, no norte da Itália, com a região da Ligúria destacada em vermelho. B: Vista zenital do túmulo “Il Principe”, conforme exibido no Museo di Archeologia Ligure, em Gênova Pegli. O modelo fotogramétrico foi criado para este estudo. C: Vista do salão oriental da caverna Arene Candide — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.

Uma reanálise conduzida por especialistas da Itália, dos Estados Unidos e do Canadá conseguiu identificar um conjunto coerente de ferimentos que apontam para um ataque de grande carnívoro – muito provavelmente um urso. Detalhes dessa conclusão foram compartilhados em um artigo publicado em dezembro de 2025 no Journal of Anthropological Sciences.

O emprego de técnicas modernas de ampliação óptica e documentação tridimensional confirmou as suspeitas levantadas ainda na década de 1940 de um ataque violento. E, segundo os autores do projeto, isso transformou o caso em uma das evidências mais sólidas já conhecidas de um ataque animal letal contra um Homo sapiens no registro do Paleolítico Superior.

Por dentro do ataque

A reavaliação do esqueleto revelou um quadro de trauma extremo. O jovem sofreu fraturas graves no ombro, no rosto e possivelmente na coluna cervical, além da perda parcial da mandíbula e da clavícula. No crânio, foi identificado um sulco linear compatível com o arranhão de uma garra ou o deslizamento de um dente, enquanto no tornozelo direito há uma perfuração que se ajusta ao padrão de mordida de um grande carnívoro. Esses sinais não se explicam por quedas ou violência interpessoal, tornando a hipótese de ataque animal a mais plausível.

A: Parte direita da mandíbula, mostrando a vista bucal, a vista oclusal dos molares e uma vista lingual da área fraturada; escala em cm. B: Dentição anterior sobrevivente, nas vistas labial, oclusal e lingual; escala em cm. C: Fragmento sobrevivente do ramo mandibular esquerdo (escala em cm) e, em detalhe, a área fraturada (escala em mm) — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.
A: Parte direita da mandíbula, mostrando a vista bucal, a vista oclusal dos molares e uma vista lingual da área fraturada; escala em cm. B: Dentição anterior sobrevivente, nas vistas labial, oclusal e lingual; escala em cm. C: Fragmento sobrevivente do ramo mandibular esquerdo (escala em cm) e, em detalhe, a área fraturada (escala em mm) — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.

A microscopia revelou ainda algo decisivo: o início de um processo de cicatrização no osso esponjoso, conhecido como ossificação intertrabecular. Esse tipo de reação ocorre rapidamente, mas dura pouco tempo antes de dar lugar a fases mais avançadas de cura. A ausência de calo ósseo e de nova formação subperiosteal indica que o adolescente sobreviveu apenas alguns dias após o ataque, possivelmente entre 48 e 72 horas, antes de morrer em consequência dos ferimentos.

Curiosamente, o estudo identificou também lesões mais antigas nos pés, como uma fratura já em consolidação no dedo mínimo e uma osteocondrite no tornozelo. Esses problemas teriam causado dor e dificuldade de locomoção, reforçando a ideia de que limitações físicas nas pernas representavam sério risco para caçadores-coletores altamente móveis, aumentando a vulnerabilidade do jovem no momento do encontro com o animal.

Sepultamento excepcional

Se, por um lado, a causa de sua morte foi brutal, o tratamento funerário ao adolescente foi extraordinário. Ele foi enterrado de costas, sobre um leito de ocre vermelho, com centenas de conchas perfuradas formando uma espécie de toucado, além de pingentes de marfim, bastões de chifre trabalhados e uma grande lâmina de sílex colocada em sua mão.

Marcas de arranhões atribuídas às garras do Ursus spelaeus na parede da Caverna de Bàsura (Toirano, Ligúria) — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.
Marcas de arranhões atribuídas às garras do Ursus spelaeus na parede da Caverna de Bàsura (Toirano, Ligúria) — Foto: Vitale Stefano Sparacello et al.

Durante muito tempo, a riqueza do enxoval levou à interpretação de que se tratava de um jovem de alto status social. Pesquisas mais recentes, porém, rejeitam essa leitura hierárquica.

O padrão observado em sepultamentos do período Gravettiano indica que enterros formais e elaborados eram reservados a indivíduos associados a eventos excepcionais, como mortes violentas, deformações marcantes ou condições patológicas incomuns. Nesse sentido, o ataque de um grande carnívoro, a desfiguração resultante e a agonia prolongada teriam exigido uma resposta ritual específica da comunidade.

Para especialistas ouvidos pela revista Scientific American, o caso oferece uma rara janela para a dimensão humana da última era glacial: medo, cuidado coletivo, tentativa de tratamento e elaboração simbólica da morte. Mais do que a história de um ataque pré-histórico, “Il Principe” revela como sociedades antigas lidavam com tragédias extremas em um mundo onde a fronteira entre caçador e caçado podia ser perigosamente frágil.

(Por Arthur Almeida)

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