*Por Christiane Indaiá
Essa história ilustra muito bem a dificuldade que muitos pais demonstram quando o assunto é a autonomia dos pequenos e a falta de percepção de limites quando adentram o ambiente escolar junto com seus filhos.
Imagine que você está em seu ambiente de trabalho e alguém bate à porta. Você abre, cumprimenta, e a pessoa, que não é sua colega de ofício, aliás, você nunca viu na vida, entra apressada, abre uma bolsa e começa a retirar coisas aleatórias que ela julga serem importantes naquele momento. Tudo isso sem nenhuma interação contigo ou com os outros, e você ainda lá, parado perto da porta, tentando entender o que estaria acontecendo, até que ela finalmente pergunta quem é você e por que a Cássia não está lá.
Conseguiu montar um cenário aí na sua cabeça? Como você reagiria se alguém “invadisse” seu espaço de trabalho, interrompesse suas atividades e ainda comprometesse o desenvolvimento das tarefas já em andamento? Consegue imaginar quais possíveis sentimentos e pensamentos te atravessariam?
Aqui, o ambiente de trabalho é a sala de aula, você é a professora, a pessoa à porta é uma mãe atrasada trazendo seu filho, e a bolsa é a mochila dele. Cássia é a professora regente que se ausentou para que você, a especialista, pudesse fazer o seu trabalho.
Pois bem, agora que você finalmente foi vista, começa a responder às perguntas da mãe.
“Oi, eu sou a professora Jéssica. A professora regente não está em sala porque, neste momento, estamos tendo aula de inglês. Durante esse momento, não fazemos uso de nenhum outro material que possa estar na mochila dele, com exceção do estojo. Os livros e o caderno desta matéria ficam no armário da sala.”
A criança então diz: “Eu te falei, mas a senhora duvidou de mim”.
“A mamãe duvidou mesmo. Nossa, professora, ele realmente me disse o que a senhora acabou de explicar.”
O que leva uma mãe ou um pai a protagonizar uma cena dessas diariamente e, às vezes, por muito tempo, é a falta de confiança na capacidade de autonomia da criança.
É importante dizer que autonomia não significa deixar a criança fazer tudo sozinha, sem supervisão, ou realizar atividades que não estejam alinhadas com sua faixa etária, mas pode e deve ser estimulada logo nos primeiros anos de vida. Para Maria Montessori, médica, educadora e pedagoga italiana, pioneira na educação infantil, reconhecida por desenvolver o Método Montessori, autonomia é a capacidade da criança de agir, pensar e aprender por si mesma, desenvolvida em um “ambiente preparado” que oferece liberdade com limites. Não é fazer o que quer, mas ter autonomia para escolher atividades, aprender com erros e realizar tarefas cotidianas sem a intervenção desnecessária do adulto.
Crianças adoram explorar, aprender e desenvolver novas habilidades. Todo dia tem algo novo a ser aprimorado. Mas como elas irão praticar e testar suas habilidades se suas tentativas são desencorajadas, depreciadas ou ainda invalidadas?
Há casos em que os pais sentem um medo muito grande de que a autonomia signifique que essa criança não precise mais deles. Temem não serem mais amados, mas é justamente aí que está a magia da coisa. Uma criança incentivada a ser autônoma é mais confiante, mais responsável, mais preparada para a tomada de decisões e mais capacitada para os desafios da vida. Tudo isso contribui para que tenha uma autoestima melhor e uma avaliação mais positiva de si mesma. Naturalmente, isso se reverte em amor e gratidão aos seus cuidadores.
Na história que relatei, a mãe não permitiu que o filho, um garoto de sete anos, muito esperto, mas visivelmente desencorajado e desacreditado, sequer abrisse a própria mochila. Isso sem contar o constrangimento gerado nele ao perceber que todos os colegas pararam o que estavam fazendo para olhar fixamente para aquela cena.
O objetivo desse exemplo é ilustrar que algumas atitudes dos pais e cuidadores podem gerar desconforto nos pequenos, atrasar o desenvolvimento da autonomia deles e ainda prejudicar o andamento do trabalho dos outros.
Vamos pensar em como promover algumas ações para termos crianças mais independentes? A Fundação Abrinq tem algumas sugestões:
1. ROTINA
Estabelecer uma rotina ajuda a criança a entender o que precisa ser feito e quando. Ela consegue se organizar melhor e cumpre as atribuições com mais independência.
2. TAREFAS DE CASA
Incentive a participação dos pequenos em tarefas domésticas. Guardar os próprios brinquedos, arrumar suas gavetas, organizar seus calçados e arrumar a própria mochila.
3. NÃO FAÇA O QUE ELES JÁ CONSEGUEM FAZER SOZINHOS
As coisas não ficarão perfeitas nas primeiras tentativas, não. Mesmo que demande mais tempo ou deixe a desejar, é importante que eles tentem. O erro faz parte da aprendizagem. Vai me dizer que suas primeiras tentativas nesse processo foram sempre impecáveis? Claro que não.
4. ORIENTE
Ofereça suporte caso necessário, mas não impeça a experiência dos pequenos. Lembre-se de que o desenvolvimento deles é o foco aqui.
5. PERMITA QUE FAÇAM ESCOLHAS
Fazer escolhas estimula a capacidade de tomar decisões. Não esqueça de que estamos falando de crianças. Ofereça duas opções apenas. Pode ser a escolha de uma peça de roupa ou de sapatos. Você prefere o vestido azul ou o amarelo? Vai usar o sapato vermelho ou o preto?
Todos ganham com o desenvolvimento da autonomia das crianças. Primeiro elas mesmas, pois desenvolvem autoconfiança; depois os pais, que podem deixar de realizar tarefas que demandam tempo e sobrecarregam a rotina; e, por fim, a comunidade, que se beneficiará de adolescentes e adultos mais capacitados para entender seu papel social e as consequências de suas escolhas.
Há um texto frequentemente atribuído ao Dalai Lama que diz: “Os bons pais são aqueles que vão se tornando desnecessários com o passar do tempo (…) porque o amor é um processo de libertação permanente (…) Dê a quem você ama asas para voar…”.
Assim, quando têm oportunidades de fazer escolhas, as crianças constroem autoestima, autorregulação e senso de pertencimento. Para que esse processo aconteça de forma saudável, é essencial que família e escola atuem de maneira complementar, oferecendo ambientes seguros, limites claros e espaço para a participação ativa da criança, sempre orientada por adultos conscientes que confiam, acompanham e intervêm apenas quando necessário.
*Christiane Indaiá – Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II) -Experiência em preparatório para FCE Cambridge ExamCertificada Cambridge Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas
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