Além dos grandes sucessos militares e do comando de um império, Alexandre, o Grande, é conhecido por ter fundado dezenas de cidades com o nome de Alexandria – em sua própria homenagem. A mais famosa delas ainda existe no Egito, mas muitas outras tiveram seus nomes substituídos ou foram esquecidas ao longo do tempo.
Agora, uma equipe de arqueólogos parece estar redescobrindo uma antiga Alexandria localizada às margens do Rio Tigre, no atual Iraque. Ela teria sido fundada no século 4 a.C. e teria como principal objetivo servir como um porto diante da remodelação dos cursos d’água no sul da Mesopotâmia.
A “Alexandria esquecida” foi identificada em um sítio arqueológico já existente (Jebel Khayabber), mas foi através do uso de drones e técnicas de geofísica que os pesquisadores puderam revelar as extensas estruturas de ruas, templos, zonas “industriais” e canais numa região fronteiriça de difícil acesso.
Alexandria vista de cima
O sítio de Jebel Khayabber já era conhecido desde a década de 1960 por abrigar uma antiga muralha de cerca de um quilômetro de extensão e com oito metros de altura. A hipótese é de que ela se trataria dos restos de Alexandria, mas pesquisas posteriores foram prejudicadas pela dificuldade de acesso à região.
“Além do fato de o auge dessa Alexandria ter ocorrido em um período há muito negligenciado pela pesquisa histórica e arqueológica, o sítio fica a apenas 15 km da fronteira iraniana. A área foi um importante campo de batalha entre o Irã e o Iraque durante a Primeira Guerra do Golfo, na década de 1980”, diz Stefan Hauser, integrante da equipe de arqueólogos, em comunicado emitido em 28 de janeiro.
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Somente em 2014 que expedições estrangeiras começaram a se aventurar pela região. Os anos seguintes foram preenchidos com trabalhos de campo restritos, já que “a organização terrorista islâmica autodenominada ‘Estado Islâmico’ ainda controlava grandes partes do norte do Iraque e da Síria, tornando a situação de segurança em todo o país precária”
Mesmo assim, a equipe de arqueólogos conseguiu obter dados sobre a superfície dos arredores de Jebel Khayabber através de imagens de drones e técnicas de mapeamento geofísico, incluindo o uso de um magnetômetro de césio.
Foi dessa forma que os pesquisadores perceberam que a Alexandria às margens do Rio Tigre era enorme, com resquícios de uma malha urbana organizada. Ruas, casas, quarteirões – os maiores conhecidos da antiguidade –, templos, oficinas, portos, canais e até antigos sistemas de irrigação estão entre as estruturas descobertas.
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Apogeu e queda de uma metrópole
Apesar da mudança de nome ao longo do tempo, Alexandria teria permanecido relevante como uma cidade portuária muito depois da morte de Alexandre. Segundo a Universidade de Constança, envolvida nas recentes descobertas, inscrições da época romana ainda mencionam uma cidade chamada Charax Spasinou ou Charax Maishan, localizada próxima à confluência dos rios Tigre e Karun e perto do que antes era o litoral do Golfo Pérsico.
“Agora percebemos que realmente temos o equivalente a Alexandria no Nilo, a famosa cidade egípcia. A situação é essencialmente a mesma: uma cidade é fundada onde o mar aberto e os sistemas fluviais, ou seja, os sistemas de transporte para o interior, se encontram. Alexandria no Tigre deve ter cumprido perfeitamente sua função como um dos principais centros do comércio de longa distância na antiguidade por mais de 550 anos”, afirma Hauser.
Os motivos para o desaparecimento da cidade, provavelmente por volta do século 3 d.C., deve-se justamente pela perda de sua principal função. Hauser explica, que num momento ainda pouco preciso, o Tigre mudou seu curso para oeste, fazendo com que a cidade perdesse tanto sua localização em uma margem de rio quanto sua importância como centro comercial no norte do Golfo.
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(Por Fernanda Zibordi)

