Tapeçaria ilustrando a Batalha de Zama, travada em 19 de outubro de 202 a.C. A disputa foi decisiva da Segunda Guerra Púnica. Nela, o exército da República Romana, liderado por Cipião Africano, derrotou as forças de Cartago lideradas por Aníbal. Logo após essa derrota, o senado de Cartago assinou um tratado de paz, terminando uma guerra de quase 20 anos — Foto: Wikimedia Commons

Um pequeno fragmento ósseo encontrado no sul da Espanha pode representar a primeira evidência física concreta de que tropas cartaginesas utilizaram grandes mamíferos em campanhas militares na Europa antiga. A peça, identificada como parte do pé de um elefante, foi desenterrada em um sítio arqueológico próximo a Córdoba e pode estar relacionada às forças comandadas por Aníbal durante as Guerras Púnicas.

A descoberta aconteceu na Colina de los Quemados, área associada a um contexto de destruição durante a Idade do Ferro. A equipe liderada pelo arqueólogo Rafael Martínez Sánchez, da Universidade de Córdoba, identificou o fragmento sob os escombros de um muro colapsado. A datação por radiocarbono indicou que o animal viveu entre o final do século 4 e o início de 3 a.C., período que coincide com a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.).

Durante séculos, representações artísticas e relatos clássicos sustentaram a narrativa de que tropas cartaginesas atravessaram a Europa com grandes animais usados como “máquinas de guerra”. Contudo, até agora, não havia confirmação osteológica dessas descrições

. “Além do marfim, a descoberta de restos de elefantes em contextos arqueológicos europeus é excepcionalmente rara”, escreveram os pesquisadores em artigo publicado em janeiro na revista Journal of Archaeological Science: Reports.

Contexto histórico e militar

Considerado um dos comandantes mais bem-sucedidos da Antiguidade, Aníbal liderou forças de Cartago – cidade localizada no atual território da Tunísia – contra a República Romana nas chamadas Guerras Púnicas, travadas entre 264 e 146 a.C. De acordo com a tradição histórica, em 218 a.C., o general teria conduzido 37 elefantes através dos Alpes rumo à Península Itálica, em uma manobra estratégica que marcou a Segunda Guerra Púnica.

Comparação do terceiro osso carpal de diferentes elefantes, de cima para baixo: espécime arqueológico de Colina de los Quemados; elefante asiático fêmea; elefante asiático fêmea de 9 anos; mamute da estepe — Foto: Martínez Sánchez et al.
Comparação do terceiro osso carpal de diferentes elefantes, de cima para baixo: espécime arqueológico de Colina de los Quemados; elefante asiático fêmea; elefante asiático fêmea de 9 anos; mamute da estepe — Foto: Martínez Sánchez et al.

O osso encontrado na Espanha, no entanto, provavelmente pertenceu a um animal que morreu antes da travessia alpina. A localização do sítio sugere que o animal pode ter feito parte de operações militares na Península Ibérica, região estratégica na disputa pelo controle do Mediterrâneo.

Escavações realizadas em 2020 na Colina de los Quemados revelaram projéteis de artilharia, moedas e cerâmicas, reforçando a hipótese de que o local foi palco de confrontos armados. Segundo os pesquisadores, o nível de destruição identificado no sítio se encaixa no padrão de eventos associados à Segunda Guerra Púnica.

Análise científica do exemplar

Para confirmar a natureza do achado, a equipe comparou o osso carpiano com espécimes de elefantes modernos e de mamutes-da-estepe. A morfologia indicou que o fragmento pertenceu de fato a um elefante. Contudo, o grau de degradação impediu a identificação da espécie exata, já que seriam necessários vestígios preservados de colágeno, proteínas ou DNA.

Os cientistas também consideraram hipóteses alternativas para explicar a presença do osso na região. Entre elas, o envio de elefantes africanos por aliados númidas de Roma durante campanhas posteriores ou o uso de animais em espetáculos no período imperial, aponta o portal Science Alert. Porém, a datação obtida por radiocarbono não se alinha adequadamente a esses cenários, fortalecendo a associação com o contexto púnico.

Além disso, os pesquisadores argumentam que seria improvável o transporte marítimo de carcaças, especialmente porque o fragmento não apresenta características ornamentais nem sinais de uso artesanal. Como espécie não nativa e de grande porte, o transporte desses animais vivos exigiria logística marítima complexa, o que reforça a interpretação de que o elefante teria sido levado à região em contexto militar, destaca a BBC News.

Embora o fragmento não possa ser vinculado diretamente a um dos animais que cruzaram os Alpes, os autores do estudo destacam seu valor simbólico e científico. No artigo científico, a equipe afirma que a peça pode representar “a primeira evidência conhecida” associado aos animais utilizados nas guerras romano-púnicas pelo controle do Mediterrâneo. Se confirmada a hipótese, o achado preencherá uma lacuna entre a tradição literária e a evidência material, oferecendo respaldo arqueológico a um dos episódios mais emblemáticos da história militar antiga.

(Por Arthur Almeida)

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