Morar em um apartamento com comodidades como um elevador privativo, uma sacada espaçosa ou uma varanda gourmet é o sonho de muita gente. Há quase 200 anos, no entanto, a exclusividade das casas de quem vivia nos EUA era diferente: algumas possuíam túneis secretos, com passagens estreitas e 4,5 metros de profundidade.
Historiadores do Museu da Casa do Comerciante, localizado em Manhattan (Nova York), encontraram um desses túneis em um móvel geminado. Essa passagem, oculta por uma gaveta de uma cômoda, provavelmente servia como um refúgio e rota de dispersão para escravos fugitivos que eram transportados para a liberdade pela Ferrovia Subterrânea. A descoberta veio a público no último dia 12 de fevereiro.
Em entrevista ao jornal The New York Times, Emily Hill-Wright, diretora de operações do museu, afirmou que se trata de uma descoberta notável. “Esta passagem é completamente diferente de qualquer outra casa nesta vizinhança, de qualquer outra casa que tenhamos visto, de qualquer outra casa que os historiadores de arquitetura com quem trabalhamos tenham visto”.
Antes, os responsáveis do museu julgavam se tratar de um tubo de lavanderia ou um túnel de brincadeiras para crianças. Porém, Hill-Wright contou à ABC News que a passagem não tinha “nenhuma finalidade doméstica”. Para usar o túnel estreito, era preciso remover a gaveta da cômoda e a tampa de madeira que escondia a abertura, espremer-se no buraco com os pés primeiro e descer uma escada. Confira no vídeo abaixo como é a passagem:
Uma casa muito engraçada
Construída em 1832 por Joseph Brewster, um chapeleiro de Connecticut, nos EUA, a passagem secreta com uma gaveta não foi obra do acaso. De acordo com Ann Haddad, historiadora do museu, Brewster foi um ativo abolicionista, tendo implementado outros esconderijos engenhosos pela cidade de Nova Iorque. Em uma das igrejas localizadas a poucos quarteirões do Museu da Casa do Comerciante, por exemplo, até foram encontrados registros que mostram que ele ordenou que operários construíssem um piso falso.
Brewster deixou muitas evidências de sua missão abolicionista em registros arquitetônicos. Para Hill-Wright, essas provas foram consistentes para provarem tanto a sua autoria quanto o seu posicionamento sobre a questão da escravidão nos Estados Unidos da época. “Esses esconderijos em prédios que ele construiu (…) não se tratavam de casos isolados”.
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Em 1835, a casa foi comprada pelo rico comerciante Seabury Tredwell, cuja família morou lá por quase um século. Enquanto os arranha-céus passavam a ocupar grande parte da paisagem da cidade, a casa permaneceu intacta e congelada no tempo graças às filhas de Tredwell. Após o falecimento da caçula, Gertrude, em 1933, a casa foi vendida para um primo distante da família que, eventualmente, decidiu transformá-la em um museu.
A construção virou Marco Histórico Nacional na década de 1960, ese mantém aberta à visitação há mais de 90 anos. Mas, em todas essas décadas, nada parecia fora do comum nos dois andares que a formam, até mesmo para os historiadores do Museu da Casa do Comerciante. Isso porque, acreditava-se que Brewster a tinha construído apenas como uma empreendimento especulativo, já que a ocupou por poucos anos. Logo, a casa se manteve como um museu que “retornava ao passado” de uma rica família do século 19, mas ninguém pensou que fosse além disso.
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Somente uma inspeção minuciosa é que perceberia uma peculiaridade estranha no segundo andar. A casa inclui uma pista adicional relacionada à passagem: portas de correr embutidas separam a sala de estar da sala de jantar e estão localizadas em um espaço incomumente amplo entre as paredes, espaço suficiente para que uma pessoa em fuga pudesse deslizar discretamente. Acontece que a passagem fica justamente entre essas paredes.
A equipe do Museu da Casa do Comerciante continua pesquisando a passagem, tentando descobrir mais sobre o projeto arquitetônico de Brewster e seus possíveis colaboradores. O museu também tem preparado uma exposição dedicada à passagem recém-identificada, que já pode receber visitas guiadas à casa.
Ferrovia Subterrânea
Nova Iorque foi um foco de ativismo abolicionista nos anos que antecederam a Guerra Civil Americana (1861-1865), tanto que a cidade foi tomada por uma rede de casas seguras, que, juntas, formaram a chamada “Ferrovia Subterrânea”.
O problema é que esse detalhe da história nova-iorquina ainda é muito fragmentado, com poucas evidências registradas ou ainda incompletas. A única conclusão que se chegou em relação a essas passagens é que elas potencialmente eram utilizadas por pessoas escravizadas que se escondiam quando caçadores de escravos faziam rondas na área ou quando recebiam visitas antes de seguirem viagem para os estados do norte do país, abolicionistas.
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O que surpreende é que antes mesmo de Brewster construir a casa, a escravidão já tinha sido praticamente abolida do estado americano. O problema era que nova-iorquino pró-escravidão ainda se mobilizavam para sequestrar trabalhadores escravizados fugitivos ou, até mesmo, ex-escravos livres e os enviarem para os proprietários de escravos dos estados do sul
Hill-right contou que não só os afro-americanos corriam graves perigos, mas também “qualquer pessoa com alguma ligação conhecida ao movimento antiescravagista ou à abolição da escravatura era alvo”. Por causa disso que os locais da Ferrovia Subterrânea eram secretos e que poucos exemplos sobreviveram intactos até os dias de hoje.
“Esta é realmente uma descoberta importante para a nossa cidade”, comentou o vereador Harvey Epstein, em cujo distrito se encontra o Merchant’s House Museum. “É importante saber como Nova Iorque desempenhou um papel vital na Ferrovia Subterrânea, como as pessoas chegavam aqui e como quem construiu este edifício o fez intencionalmente como um lugar onde as pessoas pudessem vir e estar em segurança”.
(Por Júlia Sardinha)

