As lagartas são carregadas, defendidas e, em determinados casos, alimentadas pelas formigas operárias. E a comunicação entre as espécies pode acontecer também por vibrações, segundo estudo — Foto: Vibrant Lab/Turim

 

A relação entre certas lagartas formigas está longe de ser casual. Em diversas espécies de borboletas, a fase larval depende diretamente da aceitação por colônias de formigas para sobreviver. Dentro dos ninhos, essas lagartas podem receber proteção contra predadores, alimento e abrigo, desde que sejam reconhecidas como “aliadas” e não como intrusas.

Um novo estudo desenvolvido por pesquisadores da Inglaterra, Polônia e Itália mostra que essa integração não se baseia apenas em odores químicos: ela também envolve uma comunicação rítmica sofisticada, baseada em vibrações sincronizadas. Seus resultados foram publicados nesta terça-feira (24) em um artigo da revista científica Anais da Academia de Ciências de Nova York.

Aliança desde o início da vida

Certos tipos de borboletas desenvolvem uma estratégia incomum já nos estágios iniciais de sua vida. Ainda como lagartas, elas se aproximam de formigas e passam a viver dentro ou nas proximidades do formigueiro. Ali, são carregadas, defendidas e, em determinados casos, alimentadas pelas operárias.

Esse tipo de associação mutualística — conhecida em termos técnicos como mirmecofilia — já era atribuído principalmente à “mimetização química”: as lagartas reproduzem compostos que imitam o “cheiro” (ou, no caso, os sinais químicos) da colônia. No entanto, a pesquisa indica que o reconhecimento envolve também sinais físicos.

“Essas lagartas estão essencialmente falando a língua das formigas, não apenas quimicamente, mas também pelo ritmo”, explica Chiara de Gregorio, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Warwick e coautora do estudo, em comunicado. “Ao acompanhar o ritmo das formigas, elas conseguem convencê-las de que pertencem àquele grupo.”

Vibrações organizam o diálogo

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores registraram sinais vibroacústicos, que são microvibrações que se propagam pelo solo, pelas plantas ou pelas estruturas do formigueiro. Foram analisadas duas espécies de formigas e nove espécies de lagartas com diferentes graus de dependência dessa convivência.

Entre os exemplos observados está a lagarta da borboleta Phengaris teleius, frequentemente associada à formiga Myrmica scabrinodis. Ao comparar os padrões produzidos por cada organismo, a equipe avaliou regularidade, duração dos intervalos e organização temporal dos pulsos.

Lagarta da borboleta Phengaris teleius sendo cuidada por sua formiga hospedeira, Myrmica scabrinodis — Foto: Daniel Sanchez
Lagarta da borboleta Phengaris teleius sendo cuidada por sua formiga hospedeira, Myrmica scabrinodis — Foto: Daniel Sanchez

Os dados revelaram que as lagartas mais dependentes das formigas emitem sequências altamente regulares, com alternância estruturada entre intervalos curtos e longos — algo semelhante a uma métrica musical. Já espécies com vínculos fracos ou inexistentes apresentaram sinais mais simples e menos previsíveis.

Dois traços se destacaram nas espécies com maior integração: a isocronia, caracterizada por pulsos igualmente espaçados, e um padrão binário de alternância rítmica. Essa combinação apareceu tanto nas formigas quanto nas lagartas mais especializadas, sugerindo ajuste fino moldado pela convivência ecológica.

Ritmo além dos grandes cérebros

“No ambiente escuro e lotado de um formigueiro, onde vibrações e ruídos constantes são inevitáveis, um ritmo preciso pode ajudar os sinais a se destacarem e serem reconhecidos rapidamente”, aponta Francesca Barbero, professora da Universidade de Turim, na Itália. “Para as lagartas, acertar o ritmo pode ser vital.”

Tal descoberta amplia o debate sobre a origem evolutiva do ritmo na comunicação animal. Até recentemente, padrões rítmicos complexos eram associados sobretudo a primatas e humanos. “O ritmo é uma parte fundamental da vida humana”, observa De Gregorio. “Mas descobrir que até formigas e lagartas dependem de sinais rítmicos cuidadosamente sincronizados para se comunicar é muito empolgante.”

Ao demonstrar que insetos com sistemas nervosos diminutos utilizam organização temporal refinada para mediar cooperação entre espécies, o estudo sugere que o ritmo pode ser um princípio mais disseminado na natureza do que se imaginava, atuando como uma ferramenta biológica capaz de decidir, literalmente, quem será acolhido e quem será rejeitado sob a terra.

(Por Arthur Almeida)

 

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