A evolução dos vertebrados tem diversos capítulos intrigantes. Um deles diz respeito ao desenvolvimento dos olhos, órgãos extremamente especializados capazes de captar luz, convertê-la em sinais elétricos e transmiti-los para o cérebro para a interpretação de imagens. Mas como chegamos à configuração atual, encontrada nos humanos?
Pesquisadores das Universidades de Universidade de Lund, na Suécia, e da Universidade de Sussex (Inglaterra) descobriram em um novo estudo que todos os vertebrados evoluíram de uma criatura “ciclope”, ou seja, que tinha um único olho, localizado no topo da cabeça.
Como descreve a pesquisa, publicada em 23 de fevereiro na revista científica Current Biology, o olho primitivo do ser que viveu há quase 600 milhões de anos era capaz de distinguir o dia da noite e perceber localização espacial do que era para cima e para baixo.
Olho sob demanda
O parente distante dos vertebrados é descrito como um pequeno organismo que possuía um estilo de vida sedentário, alimentando-se de outros organismos do plâncton marinho. Segundo comunicado, ele se assemelhava às minhocas de hoje, inclusive no aspecto da visão: o estilo de vida tranquilo da criatura teria causado uma perda desse olho mediano ao longo da evolução.
Entretanto, os pesquisadores sugerem que as células fotorreceptoras que antes formavam esse olho primitivo se mantiveram presentes no meio da cabeça. A explicação oferecida é que, quando a vida do pequeno ser voltou a ficar muito agitada – após milhões de anos – a necessidade de obter olhos pares aumentou, e a seleção natural deu conta de resolver isso.
Esses “novos olhos” constituíram-se em modelos mais complexos que os anteriores, dando origem a órgãos com uma conexão com o cérebro e, dessa forma, capazes de formar imagens.
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“Agora finalmente entendemos por que os olhos dos vertebrados diferem tão radicalmente dos olhos de todos os outros grupos de animais, como insetos e lulas. A película dos nossos olhos – a retina – se desenvolve a partir do cérebro, enquanto os olhos dos insetos e das lulas se originam na pele nas laterais da cabeça”, diz Dan-Eric Nilsson, pesquisador da Universidade de Lund e um dos autores do estudo, no comunicado.
Vestígios do terceiro olho
Outra descoberta impressionante do estudo foi a verificação que o antigo olho de ciclope do nosso antigo ancestral não foi embora totalmente. A partir de análises celulares e fisiológicas, os cientistas perceberam que ele foi transformado na nossa glândula pineal.
A glândula fica no centro do cérebro e é responsável por regular o ritmo circadiano do corpo, recebendo informações luminosas, via retina, sobre luz e escuridão do ambiente. Historicamente chamada de “o terceiro olho”, ela incrivelmente ainda guarda funções associadas ao olho do antigo ancestral de todos os vertebrados.
“É impressionante que a capacidade da nossa glândula pineal de regular o sono de acordo com a luz tenha origem no olho mediano ciclópico de um ancestral distante, há 600 milhões de anos”, conclui Nilsson.
(Por Fernanda Zibordi)

