Junto dos ossos, pesquisadores encontraram artefatos feitos de bronze, pulseiras, colares de contas de vidro, alfinetes, um banquinho de madeira, um fragmento de pele de gado e roupas de lã — Foto: Karolina Gołębiowska and Natalia Laskowska

No final do século 19, Bagicz, na Polônia, foi palco de uma descoberta arqueológica totalmente acidental. Um caixão contendo restos mortais de uma jovem mulher com diversos ornamentos de bronze deslizou de um penhasco à beira-mar.

A riqueza dos objetos fúnebres e o aparente isolamento da sepultura levaram estudiosos a apelidar a mulher de “Princesa de Bagicz”, indicando que ela ocupava uma posição elevada em sua comunidade. Isso era tudo o que se sabia sobre ela, até que os arqueólogos decidiram estudar novamente os registros. As novas conclusões foram publicadas na revista Archaeometry em 9 de fevereiro.

Não pergunte a idade de uma mulher

Durante décadas, a data precisa do sepultamento permaneceu incerta. A falta de exatidão, no entanto, não foi pela ausência de pesquisas: há alguns anos, cientistas das Universidades de Szczecin e Varsóvia começaram a estudar os restos mortais. Ao analisarem os objetos funerários, eles identificaram que o corpo datava do final da primeira metade do século 2.

Mas, eles estavam possivelmente equivocados. Em 2018, a datação por radiocarbono (C14) de uma amostra dentária refutou a avaliação anterior, indicando que a mulher morreu por volta do século 30, o que significa que seus restos mortais são cerca de 100 anos mais antigos do que se pensava.

Para resolver essa discrepância, pesquisadores da Universidade de Szczecin, da Universidade de Varsóvia e da Universidade de Ciência e Tecnologia AGH recorreram à dendrocronologia, um método de datação da madeira por meio da análise dos padrões de crescimento dos anéis das árvores. Eles compararam os anéis da madeira do caixão com os troncos de árvores já estabelecidas no noroeste da Polônia.

Vista do penhasco de onde caiu o túmulo — Foto: Marta Chmiel-Chrzanowska
Vista do penhasco de onde caiu o túmulo — Foto: Marta Chmiel-Chrzanowska

Em comunicado, Marta Chamiel-Chrzanowska, da Universidade de Szczecin, conta que a equipe quis reavaliar os resultados para verificar se não tinham cometido algum erro no processo. “Decidimos realizar uma análise dendrocronológica do caixão de madeira. Como resultado, descobrimos que a datação dendrocronológica coincide com a datação dos artefatos, o que significa que a jovem de Bagicz morreu por volta de 120 d.C.”, afirma.

Esse resultado revelou que a árvore usada para confeccionar o caixão foi derrubada naquele ano. Porém, isso não significa necessariamente que a mulher tenha morrido no mesmo período. Essa constatação levou Chamiel-Chrzanowska a investigar mais a fundo, o que a fez concluir que a madeira do sepultamento não estava seca, mas tinha sido aproveitada imediatamente após o corte da árvore, um costume associado à cultura Wielbark, um antigo município polonês.

Qual foi o erro?

Concluiu-se, por fim, que os vestígios mortais da “princesa de Bagicz” datam do ano 120. Mas, o que explica a quantidade variada de análises e respostas anteriores?

Os cientistas acreditam que o resultado da datação por radiocarbono foi distorcido pelo chamado “efeito reservatório”. Em outras palavras, o consumo de peixes de água doce, que era abundante na dieta da mulher, pode ter alterado a datação, uma vez que os ambientes aquáticos podem conter carbono “antigo”, gerando datas artificialmente precoces das verdadeiras.

“No caso de peixes de reservatórios marinhos, a datação por radiocarbono pode apresentar um erro de até várias centenas de anos”, explicou Chmiel-Chrzanowska. “No caso de reservatórios de água doce, a questão é muito mais complexa, pois se trata de uma característica individual, e o resultado da datação depende da quantidade de carbonato de cálcio presente no reservatório e da quantidade que entra nos organismos vivos.”

A descoberta possivelmente lança luz sobre as práticas funerárias da cultura Wielbark, dado que este provavelmente não foi um sepultamento isolado. Acredita-se que os restos mortais da jovem façam parte de um cemitério maior, preservado devido à elevação do nível da água que submergiu no local séculos mais tarde. Agora, os pesquisadores também planejam realizar análises de DNA e uma reconstrução facial da “Princesa”.

(Por Júlia Sardinha)

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