Fotos: Divulgação

Neste mês de março, em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso destaca a presença de mulheres em cargos de liderança e gestão dentro da Casa de Leis. Servidoras comemoram a oportunidade de mostrarem sua competência e trabalho, enquanto a instituição avança e aumenta a participação delas num ambiente ainda de predominância masculina.

Consultora do núcleo responsável pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) desde 2015, Waleska Cardoso é a mais experiente das mulheres em posições de destaque no Parlamento estadual. “Eu, quando fui nomeada ao cargo de consultor do núcleo da CCJR, quebrei um paradigma porque eu fui e sou a primeira mulher a ocupar esse cargo”, relembra a servidora. Ela relata que, no início da gestão, o machismo era “impactante”, o que a obrigava a demonstrar competência técnica todos os dias para ganhar a confiança dos deputados.

Segundo Waleska, o reconhecimento veio com a elaboração do substitutivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) naquele mesmo ano. O texto feito por sua equipe foi aprovado, silenciando dúvidas sobre o potencial do núcleo. Ao refletir sobre as barreiras de gênero e as cobranças diferenciadas quanto à disponibilidade profissional das mulheres, ela utiliza sua trajetória para questionar preconceitos enraizados. “É igualzinho um pai de família. Ele não tem de se adaptar? Por que que uma mulher não pode?”, questiona. Atualmente, ela celebra o avanço da instituição, destacando que hoje a Assembleia conta com mulheres “arrojadas, competentes e dedicadas” em diversas frentes de trabalho.

Já a alocação de Marcela Bruna Vieira Castro à frente da Escola do Legislativo é recente. No cargo de secretária desde novembro do ano passado, ela ingressou no setor público ainda como estagiária. A gestora ainda revela que, ao longo de sua carreira, precisou superar o sentimento de ter de se provar constantemente até para ela mesma. Hoje, defende que o amadurecimento e o posicionamento firme são fundamentais para lidar com condutas inadequadas e perguntas invasivas no ambiente de trabalho.

Como incentivo a outras servidoras que almejam postos de liderança, Marcela enfatiza a importância do autoaperfeiçoamento constante. “Prepare-se, valorize-se, capacite-se, viva o seu processo, se conheça e invista muito em você, porque as oportunidades vão te achar”, incentiva. Para a servidora, mulheres em cargos de direção contribuem para a evolução da ALMT, pois elas possuem uma flexibilidade maior e um olhar voltado para a cooperação.

O olhar diferenciado da ouvidora-geral Uecileny Rodrigues Fernandes, conhecida como Leninha, já deixou um importante legado para a Casa de Leis, o Espaço de Identificação Infantil. A servidora conta que o projeto é resultado da observação direta que ela fez do desconforto de famílias que buscavam atendimento. “Eu percebia que as mães ficavam desconfortáveis e as crianças, por ser muita conversa e muita gente, já chegavam para fazer os documentos estressadas”, explica, ressaltando a necessidade de um local onde elas se sentissem mais acolhidas. “Desde o lançamento, foi um grande sucesso e a gente tem sido copiado por alguns estados aí. Então, para gente também é um motivo de orgulho”, completa.

Leninha, que soma 17 anos de trajetória na Casa de Leis, acredita que a essência de seu trabalho reside na humanização do serviço público. A servidora pontua que a visão feminina contribui para um foco multidimensional, permitindo identificar necessidades sociais e situações de vulnerabilidade que poderiam passar despercebidas no cotidiano agitado. “Uma coisa que eu sempre prego é que a gente faça um atendimento humanizado, um atendimento diferenciado, olhando cada um com as suas diferenças e necessidades”, destaca a ouvidora.

A atenção e iniciativa de Leninha impactou milhares de pessoas, inclusive dentro da Assembleia. Um exemplo disso é que a secretária de Planejamento, Orçamento e Finanças, Hemile Oliveira, fez o documento da filha no Espaço de Identificação Infantil. Servidora desde 2016, quando ingressou para atuar em uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), Hemile passou pela recepção da Presidência e assumiu funções como gestora da Presidência e da Primeira-Secretaria. Em 2025, foi secretária parlamentar da Mesa Diretora e, após a licença-maternidade, retornou já à frente da Secretaria de Finanças. “Ingressei na Assembleia em 2016 e fui construindo minha trajetória em diferentes setores. Hoje, estar à frente da Secretaria de Finanças é resultado desse aprendizado contínuo”, afirma. Ela destaca ainda o simbolismo do momento. “Não me recordo, nesses dez anos de Casa, de outra mulher à frente dessa secretaria”.

Hemile reconhece avanços na presença feminina em cargos estratégicos, mas ressalva que os desafios permanecem. “Um dos maiores desafios da minha trajetória é ser mulher e jovem em um ambiente que, por muitos anos, foi predominantemente masculino”, declara. Segundo ela, o preconceito velado exige preparo constante. “A mulher precisa se posicionar com mais firmeza e demonstrar constantemente sua capacidade técnica e emocional”. Mãe de uma bebê de um ano, também pontua a sobrecarga enfrentada por muitas profissionais. “Conciliar a responsabilidade profissional, a maternidade e a gestão da casa exige organização, resiliência e muita dedicação”. Mas nem por isso deixa de incentivar outras mulheres. “Acreditem na própria capacidade, invistam em conhecimento e não tenham receio de ocupar espaços de decisão. Competência e compromisso são ferramentas poderosas para romper barreiras”, aconselha.

Temas como assédio e combate ao machismo estão no radar da Procuradoria Especial da Mulher, que é liderada pela subprocuradora Francielle Brustolin. A procuradora de carreira enfatiza que o enfrentamento ao assédio e ao machismo institucional na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) exige tanto mecanismos de mediação quanto uma mudança cultural profunda.

Sobre a atuação da Procuradoria Especial da Mulher em casos de desrespeito, Brustolin explica que o objetivo inicial é evitar a escalada da violência. “Se a gente pega um caso, que é um caso isolado, a gente trata para mediar aquela situação para que não se reitere e não se torne um caso de assédio”. Para ela, as barreiras enfrentadas pelas mulheres em cargos de autoridade derivam de uma construção feita de forma machista, que ainda permeia o ambiente de poder. A subprocuradora defende que a solução passa obrigatoriamente pela educação e capacitação, afirmando que as situações de desrespeito que ela própria já vivenciou são fruto de uma questão cultural. “É uma questão de falta de pensar sobre a igualdade de gênero, o que torna os treinamentos sobre o tema indispensáveis para que todos compreendam os direitos e as potencialidades femininas”, diz.

Outra mulher em cargo de liderança é Maythana Rodrigues. Na chefia da Secretaria de Gestão de Pessoas, ela é uma das quatro servidoras na função de secretária na ALMT. Maythana está na Casa de Leis desde 2016. Aos 20 anos, começou como recepcionista no gabinete do deputado Max Russi. Lá dentro, passou pelo setor administrativo e pela gestão de emendas parlamentares. Posteriormente, acompanhou o parlamentar no período em que ele assumiu a Secretaria de Estado da Casa Civil e, no retorno à Assembleia como primeiro-secretário, tornou-se chefe de gabinete da Primeira-Secretaria, função que exerceu por quase seis anos.

Em 2024, foi nomeada secretária de Serviços Legislativos e, em 2025, assumiu a Secretaria de Gestão de Pessoas, onde completa um ano à frente da pasta. Aos 31 anos, Maythana afirma que nunca teve sua competência questionada por ser mulher, embora reconheça que as posições de liderança ainda são ocupadas majoritariamente por homens. Segundo ela, os maiores desafios estiveram ligados à juventude com que assumiu cargos estratégicos. “Nada supera o trabalho”, destaca, ao aconselhar outras servidoras, defendendo dedicação, disposição e firmeza no posicionamento como caminhos para conquistar espaço e novos desafios na vida pública.

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