Você já pensou em participar de uma descoberta arqueológica enquanto passeia com seu bichinho de estimação? Foi isso que aconteceu com o casal Ivor Campbell e Jenny Snedden, enquanto andavam com seus cachorros em uma praia de Angus, na Escócia.
O casal de moradores encontraram pegadas humanas e de animais antigas em Lunan Bay após tempestades devastadoras atingirem o litoral britânico no final de janeiro. Após notarem marcas incomuns em uma nova camada de argila exposta pelos danos da tempestade, logo contataram o arqueólogo Bruce Mann, que, suspeitando da importância da descoberta, solicitou a ajuda de mais especialistas.
A equipe identificou pegadas humanas ao lado de pegadas de cervos-vermelhos, corças e outros animais. Por baixo das pegadas, foram encontrados também restos de plantas preservadas. A datação por radiocarbono, que estima a idade de amostras arqueológicas analisando átomos de carbono, indicou que as marcas foram feitas há cerca de 2 mil anos. As pegadas se referem ao final da Idade do Ferro, período que coincide com as invasões romanas da Escócia.
Corrida contra o tempo
Arqueólogos da Universidade de Aberdeen, liderados pelos professores Kate Britton e Gordon Noble, correram contra o tempo, enfrentando condições climáticas extremas, para registrar o raro sítio arqueológico, que acabou sendo destruído pela ação do clima em um intervalo de 48 horas.
A equipe trabalhou com ventos superiores a 88 km/h, enquanto a maré alta destruía partes do sítio. “Sabíamos que estávamos lidando com um sítio arqueológico realmente raro e que essa descoberta oferecia um retrato único daquele momento. Mas também era evidente que o mar logo retomaria o que havia sido revelado tão recentemente”, disse Britton. “Tivemos que trabalhar rápido nas piores condições que já enfrentei em um trabalho de campo arqueológico — o mar subia rapidamente, com cada maré alta arrancando partes do sítio, enquanto a areia trazida pelo vento o danificava simultaneamente”, completou.
Os arqueólogos também fizeram modelos 3D, moldes físicos das pegadas e capturaram imagens do local com drones, que permitiram mapear o sítio com muita precisão, segundo destaca comunicado.
Pegadas históricas
Na Escócia, não há registro anterior de um sítio arqueológico semelhante. Marcas comparáveis foram identificadas em poucos locais na Inglaterra, incluindo o estuário de Severn, Formby em Merseyside e Happisburgh em Norfolk.
“As datas do final da Idade do Ferro estão de acordo com o que sabemos sobre a rica arqueologia do Vale Lunan, nas proximidades. É muito empolgante pensar que essas pegadas foram feitas por pessoas na época das invasões romanas da Escócia e nos séculos que antecederam o surgimento dos pictos [povos celtas que habitaram a região na Idade do Ferro]”, disse o professor Noble.
Bruce Mann, arqueólogo que presta serviços aos conselhos de Aberdeenshire, Angus, Moray e da cidade de Aberdeen, elogiou a perspicácia de Ivor e Jenny, que possibilitaram a análise do sítio arqueológico.
“Assim que vi a primeira fotografia, percebi que estava diante de algo muito especial. Foi um lembrete poderoso de que algumas das descobertas mais importantes começam com alguém percebendo algo e decidindo relatar.”
Mann também lamentou a destruição do sítio. “Ficar ali parado, vendo o local ser destruído pelas ondas quebrando sobre ele, foi de partir o coração em alguns aspectos, mas pelo menos tivemos a chance de registrar a maior parte. Não sobrou nada agora, as tempestades revelaram e destruíram o local em pouco mais de uma semana.”
Embora o sítio de Lunan Bay seja único na Escócia, Britton, em um vídeo sobre a descoberta, afirmou: “O que isso significa para nós agora é que pode haver outros sítios como este por aí”. Assista abaixo.
(Por Sarah Macedo)

