Uma equipe internacional criou o que pode ser considerado um marco extremo na miniaturização de sistemas de armazenamento de dados: um QR code tão pequeno que ocupa apenas 1,98 micrômetros quadrados — uma área inferior à da maioria das bactérias.
O feito, desenvolvido por cientistas da Universidade Técnica de Viena, na Áustria, em parceria com a empresa de armazenamento de dados Cerabyte, foi reconhecido recentemente pelo Guinness World Records como o menor QR code já produzido.
Segundo o colaborador do projeto, Paul Mayrhofer, do Instituto de Ciência e Tecnologia de Materiais da Universidade Técnica de Viena, quando dados são representados por estruturas extremamente pequenas, existe o risco de que os átomos se movam ou se reorganizem ao longo do tempo, degradando o padrão e tornando-o ilegível. “O que fizemos é fundamentalmente diferente: criamos um código QR minúsculo, mas estável e repetidamente legível”, afirma Mayrhofer, em comunicado, publicado no dia 16 de fevereiro.
Estrutura menor que uma bactéria
O código QR é invisível a olho nu e mesmo aos microscópios ópticos convencionais. Para observá-lo e decodificá-lo, é necessário recorrer a um microscópio eletrônico, equipamento capaz de detectar estruturas em escala nanométrica.
A equipe utilizou feixes de íons focalizados para produzir o código, uma técnica de nanofabricação que permite esculpir padrões extremamente precisos em materiais sólidos. Além do recorde de miniaturização, os pesquisadores afirmam que a tecnologia abre uma nova perspectiva para o armazenamento de dados de longo prazo, com potencial de preservar informações por séculos ou até milênios.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/a/j/HhBPBYRjaQCxH8DpOG1Q/csm-guinnesrecord-qrcode-microscope-image-c-tu-wien-4f79e6910a.jpg)
O código foi gravado em uma camada extremamente fina de material cerâmico. Cada pixel possui apenas 49 nanômetros, dimensão cerca de dez vezes menor que o comprimento de onda da luz visível, motivo pelo qual o padrão não pode ser observado com microscopia tradicional.
Em termos comparativos, o microcódigo corresponde a apenas 37% do tamanho do recordista anterior e a aproximadamente 0,0000004% da área de um QR code comum de 2 centímetros quadrados, segundo informações divulgadas pelos pesquisadores.
Embora estruturas microscópicas já possam ser fabricadas atualmente, inclusive com precisão em nível atômico, a grande dificuldade não está apenas na miniaturização, mas na estabilidade da informação armazenada, explica Mayrhofer.
Armazenamento de informação por séculos
A solução encontrada pelos cientistas foi recorrer a filmes cerâmicos ultrafinos, materiais amplamente utilizados em revestimentos de ferramentas industriais de alto desempenho. Essas substâncias são conhecidas por sua resistência a condições extremas de temperatura, desgaste e corrosão.
No experimento, o padrão foi gravado em um composto cerâmico, no caso, uma película baseada em nitreto de cromo, justamente por sua estabilidade estrutural. A escolha pode ter implicações profundas para o futuro do armazenamento digital.
Sistemas atuais, como discos rígidos e unidades de estado sólido (SSD), costumam começar a degradar dados após cerca de uma década de uso, enquanto mídias ópticas como CDs e DVDs geralmente duram algumas dezenas de anos. Com materiais cerâmicos, a expectativa é muito diferente.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/m/Z/kcQpKZSiGYA7mFB9uF4w/csm-guinnessrecord-testing-qr-code-c-tu-wien-81edb2b92a.jpeg)
“Estamos adotando uma abordagem semelhante à das civilizações antigas”, aponta Alexander Kirnbauer, outro pesquisador membro da equipe. “Suas inscrições em pedra ainda podem ser lidas hoje.”
Outro aspecto notável da tecnologia é a densidade de armazenamento que ela permite. Segundo estimativas dos responsáveis, se o mesmo método fosse aplicado em larga escala, mais de 2 terabytes de dados poderiam ser gravados na área equivalente a uma única folha de papel A4.
Para efeito de comparação, uma área semelhante coberta por QR codes convencionais da primeira geração comportaria apenas cerca de 2,5 kilobytes de informação — o equivalente a uma página simples de texto. Essa diferença ocorre porque os microcódigos utilizam pixels extremamente pequenos, gravados diretamente no material, permitindo uma compactação muito superior às versões tradicionais.
Dados permanentes e sem gasto de energia
Um dos potencial da tecnologia está na eficiência energética. Diferentemente dos data centers modernos, que precisam de eletricidade constante para alimentar servidores e sistemas de refrigeração, os dados gravados em suportes cerâmicos não exigem energia para permanecer preservados.
A questão é relevante porque a infraestrutura digital global consome volumes crescentes de eletricidade. Em 2024, os centros de dados foram responsáveis por cerca de 1,5% do consumo mundial de energia, segundo estimativas citadas pela Live Science.
Em paralelo a isso, a produção de dados cresce rapidamente. Pesquisas de mercado indicam que o volume anual de informações digitais pode saltar de 173,4 zettabytes em 2024 para 527,5 zettabytes até 2029. Nesse contexto, métodos mais duráveis e energeticamente eficientes para preservar informação tornam-se cada vez mais necessários.
Próximos passos da pesquisa
Apesar do recorde mundial, os cientistas ressaltam que o microcódigo representa apenas o início de um novo campo tecnológico. As próximas etapas da pesquisa incluem testar novos materiais, acelerar os processos de gravação e desenvolver métodos de fabricação em escala industrial para transformar o conceito em soluções práticas de armazenamento.
O grupo de pesquisadores também investiga a possibilidade de registrar estruturas de dados mais complexas do que QR codes em filmes cerâmicos, ampliando a capacidade e as aplicações da tecnologia. Se essa iniciativa for bem-sucedida, a miniaturização extrema poderá ajudar a resolver um dos maiores desafios da era digital: garantir que o conhecimento produzido hoje permaneça acessível para as próximas gerações.
(Por Arthur Almeida)
Processo de produção do menor QR code do mundo — Foto: TU Viena

