A página foi encontrada em meio a folhas de outras obras de arte de um museu francês — Foto: Museu de Belas Artes de Blois/Flickr

No último dia 6 de março, a revista Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik noticiou a descoberta de uma página até então perdida do Palimpsesto de Arquimedes, um dos manuscritos científicos mais importantes da Antiguidade. Segundo o Museu de Belas Artes de Blois, localizado no centro da França, trata-se da folha 123, cujo conteúdo inclui passagens do tratado “Sobre a Esfera e o Cilindro” (Livro I, Proposições 39 a 41) – texto fundamental para a história da matemática.

Encontrado por Victor Gysembergh, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), o fólio representa um importante avanço nos esforços para recuperar as obras perdidas do matemático grego Arquimedes de Siracusa. Trata-se de um manuscrito grego-bizantino do século 10 que contém uma série de tratados que, na Idade Média, foram eventualmente apagados.

Passados trezentos anos, este e os demais fólios deram lugar a textos litúrgicos cristãos. Essa prática estava relacionada à criação de palimpsestos, isto é, de manuscritos reutilizados. A prática era comum na Idade Média devido ao alto custo do papel de pergaminho, feito de pele animal.

Antes de ser quase apagado da história, o Palimpsesto de Arquimedes teve uma longa trajetória. Após a sua criação, foi guardado no mosteiro de Mar Seba, no deserto da Judeia. Mais tarde, foi transferido para Constantinopla, onde foi fotografado pelo dinamarquês Johan Ludvig Heiberg, em 1906.

Depois de desaparecer por décadas, foi vendido em leilão no ano de 1998 a um colecionador particular que o disponibilizou para estudo no Walters Art Museum, em Baltimore, nos Estados Unidos. Essa movimentação resultou no desaparecimento de três folhas documentadas nas fotografias, que, desde então, foram consideradas perdidas. A folha recém-identificada por Gysembergh estava entre essas páginas.

Trabalho de identificação

A descoberta foi feita de maneira inusitada: enquanto os especialistas do Museu de Belas Artes de Blois mexiam em algumas folhas soltas de uma coleção de arte, Gysembergh reconheceu o manuscrito sem quaisquer dúvidas.

A identificação do manuscrito como a folha 123 do Palimpsesto de Arquimedes foi confirmada por meio do uso da tecnologia. A página, já bem desgastada pelas ações do tempo, foi comparada com as fotografias tiradas por Heiberg, hoje preservadas na Biblioteca Real Dinamarquesa.

A página perdida do Palimpsesto de Arquimedes, mostrando (à esquerda) uma iluminura do profeta Daniel e (à direita) o lado do texto do fólio redescoberto, com a tênue escrita de Arquimedes visível — Foto: Museu de Belas Artes de Blois/Flickr
A página perdida do Palimpsesto de Arquimedes, mostrando (à esquerda) uma iluminura do profeta Daniel e (à direita) o lado do texto do fólio redescoberto, com a tênue escrita de Arquimedes visível — Foto: Museu de Belas Artes de Blois/Flickr

Os pesquisadores observaram que, em um dos dois lados da página, havia um texto de orações com diagramas geométricos e uma passagem do tratado “Sobre a Esfera Climática e o Cilindro”. O outro lado, por sua vez, é coberto por uma iluminura adicionada no século 20, representando o profeta Daniel rodeado por dois leões, sob a qual o texto antigo permanece inacessível até hoje por meio de métodos convencionais de exame.

Acredita-se que a imagem deste último lado foi adicionada em 1942 pelo então proprietário do fólio. Segundo os pesquisadores, é possível que o responsável pela intervenção sequer soubesse que, sob a pintura, havia um fragmento de um dos textos científicos mais importantes da Antiguidade.

Mistérios seculares

Durante muito tempo, o Palimpsesto de Arquimedes só foi acessível aos estudiosos por meio das fotografias tiradas em 1906. Mesmo com esse acesso limitado, no início dos anos 2000, as imagens permitiram que os pesquisadores reconhecessem textos importantes de Arquimedes, bem como fragmentos até então desconhecidos de outras obras literárias e filosóficas do mesmo período. Essas descobertas integraram a campanha de estudo inicial sobre o palimpsesto.

Agora, Gysembergh planeja realizar novas investidas dentro de um ano, utilizando uma abordagem multiespectral combinada com análise de fluorescência de raios X baseada em síncrotron. Esses métodos poderiam penetrar as camadas de tinta do século 20 e revelar o texto antigo subjacente sem danificar o pergaminho.

A abordagem poderá não só revelar o texto completo da página perdida, mas também levar a um reexame de todo o palimpsesto com a tecnologia mais recente. Isso poderá, inclusive, melhorar a leitura de trechos que permaneceram ilegíveis durante os estudos iniciais no início dos anos 2000.

(Por Júlia Sardinha)

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