Mineral vermelho tóxico é achado em enterro duplo de mulheres de 1,9 mil anos

cinábrio é um mineral de sulfeto de mercúrio que, apesar de ser altamente tóxico, foi usado por muitas civilizações antigas, muito por conta da sua intensa cor vermelha, que poderia ser utilizada para a produção de tintas.

Em um novo estudo, publicado no último dia 12 de março na revista científica Antiquity, pesquisadores de instituições da Polônia e da Ucrânia relatam a descoberta de pedaços vermelhos de cinábrio em uma sepultura datada de 1.900 anos atrás.

No sepultamento do que parecem ter sido duas mulheres de origem cita – povo nômade que habitou a região da antiga Eurásia –, o mineral teria provavelmente sido usado para retardar a composição dos corpos, mas sua real função ainda permanece um mistério.

Sepultura de duas mulheres citas no cemitério de Chervony Mayak. — Foto: B. Polit/Late Scythian Archaeological Expedition, Institute of Archaeology, National Academy of Sciences of Ukraine
Sepultura de duas mulheres citas no cemitério de Chervony Mayak. — Foto: B. Polit/Late Scythian Archaeological Expedition, Institute of Archaeology, National Academy of Sciences of Ukraine

Mineral tóxico na civilização cita

Os citas viveram entre o período de 800 a.C. e 300 d.C., circulando em regiões de estepes da Ásia Central no que hoje se configura principalmente os territórios da Rússia, Ucrânia e Cazaquistão. Um costume comum nessa e em outras muitas civilizações do período era frequentemente reabrir sepulturas a fim de realizar mais enterros.

“Sabemos que uma cripta pode funcionar por até 50 anos consecutivos. Sabemos com certeza, graças às escavações, que as criptas do período cita tardio foram abertas e que sepultamentos secundários e terciários ocorreram ali”, diz Olena Dzneladze, arqueóloga da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia e uma das autoras do estudo, em entrevista ao site Live Science.

Chervony Mayak é um sítio arqueológico às margens do rio Dnieper, que atravessa a nação ucraniana de norte a sul e deságua no Mar Negro — Foto: Olena Dzneladze, Beata Polit/Antiquity
Chervony Mayak é um sítio arqueológico às margens do rio Dnieper, que atravessa a nação ucraniana de norte a sul e deságua no Mar Negro — Foto: Olena Dzneladze, Beata Polit/Antiquity
Detalhes dos esqueletos, objetos encontrados no sepultamento das duas mulheres de civilização cita. Contas, cerâmica e itens de metal foram encontrados junto aos restos mortais — Foto: Olena Dzneladze, Beata Polit, M. Podsiadło/Antiquity
Detalhes dos esqueletos, objetos encontrados no sepultamento das duas mulheres de civilização cita. Contas, cerâmica e itens de metal foram encontrados junto aos restos mortais — Foto: Olena Dzneladze, Beata Polit, M. Podsiadło/Antiquity

Descoberto em 1970, Chervony Mayak é o primeiro sítio arqueológico cita tardio identificado com a presença de nódulos de cinábrio.

Qual a função do pigmento?

Por ser a principal forma de extração do minério mercúrio, o cinábrio traz riscos de envenenamento, especialmente quando aquecido e seus gases tóxicos são inalados. Casos de intoxicação por mercúrio podem provocar sintomas gastrointestinais, renais e até a morte. Os pesquisadores afirmam que grupos pré-históricos da Ucrânia podem não ter tido conhecimento disso.

Civilizações antigas deixaram vestígios do uso de cinábrio para a criação de pigmentos usados em pinturas corporais, pinturas rupestres e objetos ritualísticos — Foto: A. Kurzawska/Antiquity
Civilizações antigas deixaram vestígios do uso de cinábrio para a criação de pigmentos usados em pinturas corporais, pinturas rupestres e objetos ritualísticos — Foto: A. Kurzawska/Antiquity

Entre práticas antigas assciadas ao uso do cinábrio, estão as pinturas corporais, pinturas rupestres e rituais. Mas a presença do pigmento na sepultura cita pode ter tido uma função. Como destacam os autores, ele pode ter sido usado para retardar a deterioração dos corpos. Além disso, os três dos 177 túmulos de Chervony Mayak em que se identificou o pigmento são de enterros de mulheres.

“O uso do cinábrio também para fins cosméticos não deve ser descartado… Ocre e outros corantes minerais também foram encontrados em sepulturas femininas [do período cita tardio] em píxides, caixões e conchas usados ​​para armazenar e diluir cosméticos (…) Podemos atribuí-los ao conjunto de objetos funerários femininos”, diz Dzneladze.

(Por Fernanda Zibordi)

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