
Christiane Indaiá
Enquanto pais se preocupam com o que os filhos fazem fora de casa, uma influência silenciosa cresce dentro das telas. Em meio a vídeos, fóruns e “conselhos” disfarçados de ajuda, meninos estão sendo expostos a conteúdos que distorcem o que significa ser homem.
Machosfera ou manosfera são, segundo a ONU, termos utilizados para nomear comunidades online que têm promovido definições cada vez mais estreitas e agressivas do que significa ser homem, além de sustentar a falsa narrativa de que o feminismo e a igualdade de gênero ocorreram às custas dos direitos dos homens. Essas comunidades promovem a ideia de que o valor masculino está ligado ao controle emocional, à riqueza material, à aparência física e ao domínio, especialmente sobre as mulheres.
Esses grupos miram públicos masculinos em redes sociais, podcasts, comunidades de games, aplicativos de namoro e praticamente todos os espaços digitais. Muitos homens entram em contato com esse conteúdo ao buscar fóruns para falar abertamente sobre questões masculinas. Embora o conteúdo pareça voltado para o autodesenvolvimento masculino, muitos desses grupos promovem comportamentos nocivos, como ensinar meninos e homens a se fortalecerem às custas dos outros.
Meninos estão sendo “formados” por essas comunidades na internet, e muitos pais ainda não se atentaram para esse perigo. Crianças e adolescentes não têm maturidade suficiente para navegar no submundo das redes. Esses grupos vendem cursos e mentorias online para disseminar suas ideias de ódio e desprezo, principalmente contra mulheres. Partindo do princípio de que eles não têm autonomia financeira, quem está pagando por esse conteúdo para eles?
Esses “mentores” lançam livremente seus funis de venda nas redes. Sabe como funcionam esses funis? Não? Vou te explicar.
Primeiramente, eles lançam suas iscas. Geralmente, são frases tão, mas tão absurdas, que causam nossa repulsa e, diante dela, o usuário da rede social encaminha para alguém, mas não é porque concorda, é porque é absurdo! E aí esse conteúdo vai se espalhando e, quando se vê, o post já tem milhões de visualizações. Obviamente, alguém vai se identificar e começar a seguir o perfil. O segundo passo do “mentor” é se colocar como dono da verdade, uma autoridade naquele assunto misógino, obviamente. Lembre-se de que estamos falando sobre esses grupos. E é aqui que o mentor se fortalece, pois passa a contar com a “proteção” de seus seguidores, que defendem e amplificam o discurso de ódio. O terceiro passo é vender os cursos e mentorias para aquela audiência já qualificada. É nesse ponto que se tornam ídolos milionários.
Quando um conteúdo desses chegar até você, não compartilhe, não comente. Mesmo que seu comentário seja contrário às ideias da postagem, é importante não engajar. Denuncie, bloqueie e não siga o perfil.
Se você não tem conhecimento sobre os termos usados para nomear essas comunidades e o que cada uma delas pratica, fique atento à lista abaixo:
REDPILL: É a porta de entrada para esses grupos. Muitas pessoas pensam que os redpills são os mais nocivos, mas não são. Tem coisa muito pior e mais agressivamente elaborada. O termo redpill vem do filme Matrix. No filme, ao tomar a pílula vermelha, Neo escolhe conhecer a realidade como ela realmente é, mesmo que seja dolorosa e assustadora; a pílula vermelha representa o despertar da simulação (a Matrix), enxergar a verdade sobre o mundo controlado pelas máquinas e assumir a responsabilidade pela liberdade. O termo foi apropriado por comunidades de homens que pregam que o mundo social e amoroso é injusto com os homens, frequentemente associando essa visão a discursos misóginos e machistas. O objetivo é defender a virilidade, pregar o desapego emocional em relação às mulheres. Rejeitam o feminismo e frequentemente apresentam comportamento antissocial contra as mulheres.
TRADCON: Abreviação de Traditional Conservative, conservador tradicional. Refere-se a uma postura ideológica que defende a volta de valores sociais e familiares considerados tradicionais, muitas vezes com uma visão de mundo hierárquica e patriarcal. Esse grupo defende a sociedade de antes do movimento feminista. Evoca papéis de gênero rígidos, nos quais a mulher deve ser submissa ao homem, dedicando-se exclusivamente ao lar e à família. Rejeitam as conquistas de igualdade de gênero, encarando o empoderamento feminino como uma ameaça à ordem social.
Acreditam na superioridade masculina e no direito dos homens de controlar e monitorar as ações das mulheres, incluindo restrições ao trabalho fora de casa. Eles promovem a violência psicológica e moral contra elas.
MGTOW: (sigla para Men Going Their Own Way, que em português significa “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”). Essa comunidade representa um movimento de homens que decidem se isolar de relacionamentos amorosos e sexuais com mulheres, alegando que a sociedade moderna e as relações afetivas são estruturadas contra eles.
Esse grupo dissemina ódio contra mulheres, desumanização e violência simbólica. Representa uma resposta conservadora e reacionária ao avanço dos direitos das mulheres e ao feminismo. Eles argumentam que a igualdade de gênero é prejudicial aos homens. O MGTOW frequentemente compartilha da ideologia “Red Pill”, acreditando terem “despertado” para uma suposta manipulação social, em que as mulheres seriam inimigas ou interesseiras. O objetivo central é o corte de laços com mulheres (namoro, casamento) para evitar, segundo eles, perdas financeiras (como em divórcios) e manipulações emocionais. É comum, nesse meio, a produção de conteúdos que tratam mulheres de forma inferior, comparando-as a crianças ou justificando a subjugação, inclusive com conteúdos de violência sexual.
PUA: (Pick Up Artists, ou “Artistas da Sedução”). Esse grupo foca em técnicas de “sedução” que tratam mulheres como objetos a serem conquistados ou manipulados para satisfação sexual. Seus membros representam uma visão de mundo em que homens dominantes (chamados frequentemente de “alfas”) devem ter controle sobre mulheres, que são vistas como inferiores ou subservientes. Embora alguns PUAs disfarcem suas ações como “autoajuda” para homens tímidos, a comunidade é frequentemente associada a discursos de ódio, desprezo e aversão profunda a tudo o que é feminino. Muitos desses grupos atuam como uma indústria do ódio, vendendo cursos e mentorias que ensinam comportamentos misóginos com o objetivo de manter estruturas patriarcais de dominação masculina, utilizando manipulação e objetificação para desvalorizar as mulheres.
BLACKPILL: Essa comunidade prega a crença de que homens com características físicas “indesejáveis” (abaixo de certa altura, calvície, obesidade etc.) estão fadados ao fracasso amoroso e sexual, sem chance de mudança. Esse grupo classifica homens como chads e betas:
Chad: associado à autoconfiança extrema, fisicamente atraente e bem-sucedido com mulheres, mas também ligado à ideologia incel.
Beta: termo usado de forma pejorativa para descrever homens que não se encaixam na masculinidade hegemônica ou “alfa”, ou como um termo de autodepreciação.
Culpam as mulheres por sua solidão, gerando ódio intenso, ressentimento e objetificação, tratando mulheres como seres inferiores ou nocivos. A blackpill é considerada uma ideologia perigosa, que incentiva a violência de gênero, a misoginia e, em casos extremos, a violência física contra mulheres e a sociedade. Defendem a superioridade masculina e encaram a igualdade de gênero como uma ameaça aos direitos dos homens. O termo ganhou força na internet, especialmente em fóruns, onde jovens frustrados se radicalizam ao aceitar a ideia de que “não há esperança” e de que o mundo é injusto com eles por causa das mulheres.
INCEL: É uma abreviação de “celibatário involuntário” (involuntary celibate), referindo-se a uma subcultura online composta majoritariamente por homens jovens que se autodeclaram incapazes de conseguir parceiras sexuais ou afetivas, responsabilizando as mulheres e a sociedade por essa situação. Esse grupo representa uma vertente radicalizada da “machosfera”. Os incels nutrem um ódio profundo contra mulheres, frequentemente disseminando discursos que as desumanizam e as culpam por suas frustrações amorosas e sexuais. A ideologia incel defende a superioridade masculina e encara a rejeição afetiva como uma violação de direitos, chegando a classificar a recusa feminina como uma forma de “violência” ou “estupro reverso”. Esse grupo é monitorado como uma ameaça à segurança, com histórico de radicalização que pode resultar em ataques, assassinatos em massa e crimes de ódio motivados por vingança. Eles se consideram rejeitados e vítimas de uma sociedade que não tem lugar para eles, encontrando em fóruns online um ambiente de validação para sua amargura. A cultura incel se sobrepõe à masculinidade tóxica e, em alguns casos, ao racismo, criando um ambiente perigoso para jovens que se envolvem nesses grupos. Os incels entraram para a lista de grupos radicais monitorados por ONGs americanas devido à disseminação de ódio e ao risco de violência.
A machosfera não é apenas um fenômeno digital, é um alerta urgente sobre quem está influenciando nossos meninos. Cabe aos pais e responsáveis ocupar esse lugar, orientar, dialogar e ensinar que ser homem não passa por dominar o outro, mas por respeitar, conviver e construir relações saudáveis.
Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e no ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas
*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do News MT.


