Muito antes de ganhar as manchetes por causa de bombardeiros, milênios antes de atravessar ditaduras ou teocracias, quando o país ainda nem era chamado de Pérsia pelos europeus — ainda na Idade do Bronze —, as pessoas que viviam onde hoje é o Irã já se reuniam em torno de mesas para se desafiar em partidas estratégicas de jogos de tabuleiro.
Nos anos 1970, enterrado junto a uma pessoa no cemitério de Shahr-i Sokhta, no Irã, foi encontrado o mais antigo conjunto completo de um jogo de tabuleiro, com cerca de 4,5 mil anos. Existem até achados arqueológicos mais antigos (e provavelmente as mancalas já eram jogadas milênios antes, em buracos no chão que não deixaram registros). A diferença é que o jogo de Shahr-i Sokhta foi encontrado com suas vinte e sete peças, além de quatro dados, algo até então inédito. Só faltava uma coisa: o livro de regras.
Essa é uma situação comum no estudo de jogos antigos: encontram-se os tabuleiros, mas ninguém sabe exatamente como jogar. Às vezes acontece um golpe de sorte, como quando o pesquisador Irving Finkel traduziu a escrita cuneiforme de uma tabuleta babilônica que nada mais era do que um manual de regras do Jogo Real de Ur, encontrado em uma escavação no início do século 20.
Embora o tabuleiro dos dois jogos seja parecido, a quantidade e o formato das peças não permitiam que as regras de um fossem simplesmente transpostas para o outro. O jogo iraniano é o primeiro em que se tem registro de peças com funções específicas de acordo com seu formato. A partir do tabuleiro, no entanto, e com base no que se conhecia sobre o movimento das peças no jogo de Ur (que no fundo é uma corrida estratégica, como o gamão), pesquisadores publicaram há algum tempo um conjunto de regras plausível para o jogo, que pode ser testado online neste link.
Agora, esse tipo de pesquisa ganhou um novo capítulo com o desenvolvimento da inteligência artificial. Walter Crist, pesquisador da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, notou, ao visitar um museu em seu país, que um dos artefatos exibidos estava catalogado como um antigo jogo de tabuleiro, mas que lhe era até então desconhecido — as linhas desenhadas tinham um padrão diferente do que ele estava acostumado a ver.
Analisando o padrão de desgaste nas linhas, Crist pôde inferir qual seria o movimento mais frequente das peças – estima-se que o tabuleiro tenha algo entre 1.500 e 1.700 anos. A partir daí, usando um banco de dados com milhares de regras de jogos conhecidos, um software realizou simulações de partidas em que agentes de IA se enfrentaram milhares de vezes, gerando dados quantitativos sobre a jogabilidade. A conclusão foi que se tratava de um jogo de bloqueio, daqueles em que vence quem conseguir posicionar suas peças de modo a impedir qualquer movimento do oponente.
(Por Daniel de Barros)


