Antes da recém-descoberta, apenas cinco contas de argila do período paleolítico eram conhecidas mundialmente — Foto: Laurent Davin

Um estudo publicado na revista Science Advances na última quarta-feira (18) detalha a descoberta de ornamentos de argila – 142 contas e pingentes – encontrados no sudoeste asiático, considerados os mais antigos da região. Uma equipe internacional de arqueólogos revelou que alguns dos artefatos foram moldados pelas mãos de crianças, revelando um capítulo curioso da história da humanidade.

Alguns dos objetos parecem ter sido projetados especificamente para os pequenos, como um anel de argila com apenas 10 milímetros de largura. Mas, para além do formato dos ornamentos, a equipe se surpreendeu com as suas superfícies: no total, 50 impressões digitais permaneceram preservadas, o que permitiu aos pesquisadores identificar quem as fez. É a primeira vez que arqueólogos conseguem identificar os fabricantes de ornamentos paleolíticos.

Pequenas o suficiente para caber na palma da mão, as contas foram cuidadosamente moldadas em cilindros, discos e elipses a partir de argila crua. Muitas delas foram revestidas com ocre vermelho, utilizando uma técnica conhecida como engobe, uma fina camada de argila líquida aplicada sobre a superfície. Este é o uso mais antigo conhecido dessa técnica de coloração em todo o mundo.

Os ornamentos foram encontrados em quatro sítios natufianos: el-Wad, Nahal Oren, Hayonim e Eynan-Mallaha, abrangendo mais de três milênios de ocupação pelas primeiras comunidades sedentárias do mundo.

Ornamentos da comunicação

As descobertas trazem à luz um capítulo esquecido na história de como os seres humanos começaram a expressar identidade, pertencimento e significado por meio da cultura material. A enorme quantidade de contas encontradas, por exemplo, mostra que o uso da argila não se tratava de um experimento isolado, mas de uma tradição consolidada.

Para os arqueólogos, ao que parece, a argila já se configurava como uma meio de comunicação visual muito antes do seu uso ser destinado à confecção de tigelas ou jarros. “Essa descoberta muda completamente a forma como entendemos a relação entre argila, simbolismo e o surgimento da vida sedentária”, disse Laurent Davin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, em comunicado.

Vestígios de fibras vegetais preservados em algumas contas mostram como elas eram enfiadas e usadas, oferecendo uma visão rara de materiais orgânicos em registros arqueológicos — Foto: Laurent Davin
Vestígios de fibras vegetais preservados em algumas contas mostram como elas eram enfiadas e usadas, oferecendo uma visão rara de materiais orgânicos em registros arqueológicos — Foto: Laurent Davin

Os resultados sugerem que a confecção de ornamentos era uma atividade cotidiana compartilhada. A participação conjunta entre membros da mesma comunidade desempenhava um papel na aprendizagem, na imitação e na transmissão de valores sociais de uma geração para a seguinte.

Não à toa, das 19 contas distintas identificadas, muitas delas reproduziam formas de plantas que eram centrais para a vida dos natufianos, como cevada, trigo e lentilhas. Em conjunto, os ornamentos sugerem que a natureza não era apenas uma fonte de alimento, mas também uma fonte de significado.

O estudo refuta uma ideia defendida já há muito tempo por pesquisadores e arqueólogos, isto é, a de que os usos simbólicos da argila no sudoeste asiático só surgiu com a agricultura e o modo de vida neolítico.

Nesse período, os ornamentos de barro passaram a ser uma forma de expressar identidade, afiliação e relações sociais. “As raízes do Neolítico são mais profundas do que pensávamos, [tanto que] esses objetos mostram que profundas mudanças sociais e cognitivas já estavam em curso”, pontuou Leore Grosman, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

(Por Júlia Sardinha)

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