De acordo com os pesquisadores, os impactos causados nas muralhas romanas não poderiam ter vindo de uma arma portátil, mas sim de uma elabora máquina de guerra de maior porte — Foto: Silvia Bertacchi, Verônica Casadei/Heritage

Após mais de 1.900 anos desde a destruição de Pompeia pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C., os sítios arqueológicos da cidade ainda nos revelam pistas sobre o mundo antigo, muitos deles não necessariamente associados ao desastre pelo qual a cidade é conhecida. Em um estudo publicado em fevereiro, pesquisadoras italianas afirmam ter descoberto marcas de uma elaborada máquina de guerra usada durante um cerco na cidade quase um século antes da erupção do Vesúvio.

Em um estudo publicado na revista científica Heritage, os cientistas descrevem danos de batalhas em muralhas ao norte de Pompeia com características estranhas. Eles se diferem de grandes crateras circulares formadas por pedras lançadas por catapultas romanas: são menores e se dispõem em formato de leque pelas paredes.

Os atribuídos como sinais de desgaste e dano de conflitos em geral, o novo estudo sugere que esses buracos foram, na verdade, feitos por uma arma complexa e capaz de disparar rapidamente múltiplos projéteis durante o sítio de Lúcio Cornélio Sula na cidade.
Panorama geral da localização da muralha analisada no estudo, começando desde a localização de Pompeia na Península Itálica até detalhes do circuito da muralha ao norte da cidade — Foto: Adriana Rossi, Silvia Bertacchi, Verônica Casadei, Google Earth/Heritage
Panorama geral da localização da muralha analisada no estudo, começando desde a localização de Pompeia na Península Itálica até detalhes do circuito da muralha ao norte da cidade — Foto: Adriana Rossi, Silvia Bertacchi, Verônica Casadei, Google Earth/Heritage

Reconstrução de artilharia

balística é a ciência especializada em estudar as diferentes propriedades de projéteis – tais como movimento, comportamento e química do disparo. Foi a partir desse campo de estudo que as pesquisadoras analisaram os buracos deixados pela misteriosa máquina de guerra há mais de 1.900 anos.

Com escaneamento a laser e fotogrametria, os cientistas produziram modelos 3D em alta resolução dos buracos. Assim foi possível estimar medidas como profundidade, largura e o possível formato dos projéteis e dos impactos. Os resultados indicaram que os tiros teriam vindo de uma máquina não portátil e de alta velocidade de disparo.

Comparação de registros de danos de batalhas na muralha. A fotografia da esquerda trata-se de uma foto de 1925, enquanto a da direita foi feita por uma das pesquisadoras em setembro de 2024 — Foto: Van Buren, Silvia Bertacchi/Heritage
Comparação de registros de danos de batalhas na muralha. A fotografia da esquerda trata-se de uma foto de 1925, enquanto a da direita foi feita por uma das pesquisadoras em setembro de 2024 — Foto: Van Buren, Silvia Bertacchi/Heritage

A teoria mais provável é que tratava-se de uma políbole, uma máquina de guerra da antiguidade semelhante à uma besta, porém com maiores dimensões. Segundo comunicado, ela é considerada uma precursora da metralhadora por disparar projéteis em alta velocidade.

Comparação de dois modelos de detalhados de perfurações de projéteis produzidos por artilharias romanas. O primeiro é de um impacto balístico de um projétil de pedra esférico e o segundo buracos em forma de leque de impactos quadrangulares menores — Foto: Silvia Bertacchi/Heritage
Comparação de dois modelos de detalhados de perfurações de projéteis produzidos por artilharias romanas. O primeiro é de um impacto balístico de um projétil de pedra esférico e o segundo buracos em forma de leque de impactos quadrangulares menores — Foto: Silvia Bertacchi/Heritage

Marcas de batalhas preservadas

Para fundamentar a ideia da políbole, compararam-se os dados obtidos das muralhas de Pompeia com projetos de engenharia gregos do século 3 a.C., que descrevem projetos similares ao desta máquina antiga. As pesquisadoras também levaram em conta coleções de museus e projéteis remanescentes de outros sítios romanos.

Muitos deles, especialmente aqueles associados a catapultas estilo escorpião – máquina de artilharia romana baseada em torção – correspondiam às dimensões dos modelos 3D.

“A configuração inequivocamente radial dos impactos próximos observados em Pompeia (…) torna razoável hipotetizar o uso de um escorpião automático destinado a atingir arqueiros”, descrevem os autores.

Representação de estilos de catapultas romanas reconstruídas virtualmente e em 3D — Foto: C. Formicola/Heritage
Representação de estilos de catapultas romanas reconstruídas virtualmente e em 3D — Foto: C. Formicola/Heritage

De acordo com a pesquisa, os danos nas muralhas causados por essa antiga metralhadora provavelmente ocorreram durante o cerco de Lúcio Cornélio Sula, general e ditador da República romana, na cidade quase um século antes do Vesúvio entrar em erupção.

Por mais surpreendente que seja, esses dois eventos, de certa forma, ainda possuem uma relação. Segundo os cientistas, as cinzas vulcânicas que soterraram a cidade um século depois da ação militar podem ser a responsável por preservar os vestígios dos disparos da políbole por quase dois mil anos.

(Por Fernanda Zibordi)

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