A dona de casa Marta Noriko Nomura Takara, hoje com 56 anos, engravidou de sua primeira filha durante a juventude. Por uma demanda de seu plano de saúde, precisou se deslocar de Itaquera, na zona leste da capital paulista, até Suzano (SP) para fazer um ultrassom de rotina. No trajeto de volta, sua bolsa começou a vazar. Como ainda estava longe de casa, decidiu retornar à clínica onde havia feito o exame. Lá, foi atendida por um ginecologista que pressionou sua barriga com força excessiva. A ação foi tão brusca que ela relata ter ouvido o restante do líquido amniótico jorrar no chão.
“Ele [o médico] tinha até cara de deboche”, recorda Takara. “Estava meio que rindo. Falou: ‘Ah, vamos internar’. De forma tranquila. Não entrou em desespero”.
O caso vivido por Takara é um exemplo claro de violência ginecológica e obstétrica – problema muitas vezes ignorado que afeta milhares de brasileiras todos os anos. Os termos englobam práticas que vão desde a deslegitimação da dor e a ausência de informação e consentimento até intervenções invasivas ou sem indicação clínica clara em atendimentos ginecológicos, no pré-natal, parto, aborto ou puerpério.
Entre os exemplos mais comuns estão o uso indiscriminado de ocitocina para acelerar o parto e a episiotomia. A prática envolve um corte entre a vagina e o ânus para ampliar a passagem do bebê. Ainda que necessário em casos de partos que precisam ser feitos rapidamente ou que envolvem risco para saúde da mãe e o bebê, o procedimento clínico era, historicamente, realizado de forma desproporcional no Brasil.
Segundo dados da 2ª edição do estudo Nascer no Brasil, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), lançada no ano passado, apontou que até dois terços das gestantes no Rio de Janeiro sofreram algum tipo de violência obstétrica. A nível nacional, dados de 2011 e 2012 indicavam que cerca de 30% das mulheres atendidas em hospitais privados relataram esse tipo de experiência; no SUS (Sistema Único de Saúde), o percentual chegava a 45%. A prática vem diminuindo ao longo dos últimos anos, e se aproximando da meta de 8% estipulada pela OMS. Dados da Fiocruz indicam que, há cerca de uma década, a episiotomia era realizada em 47% dos partos no SUS; em 2025, o índice caiu para 7%.
Abusos na gestação e parto
Diversas práticas são frequentemente associadas à violência obstétrica durante a gestação e o parto:
– Episiotomia: procedimento cirúrgico que amplia a abertura vaginal por meio de uma incisão no períneo (região entre a vagina e o ânus). Não deve ser realizado de forma rotineira, conforme recomendação do Ministério da Saúde.
– Ocitocina sintética: medicamento produzido em laboratório que mimetiza a ação da ocitocina natural e é utilizado para induzir contrações uterinas no trabalho de parto. O problema está no uso inadequado, excessivo ou sem o consentimento da paciente, o que pode provocar traumas psicológicos, além de riscos como morte fetal e hemorragia pós-parto.
– Ponto do marido: embora lacerações vaginais possam exigir sutura, a violência ocorre quando o profissional realiza um “ponto extra” para estreitar a vagina, sob a justificativa de aumentar o prazer sexual do parceiro. Sem respaldo científico, a prática é invasiva e pode causar dor, desconforto e complicações físicas e emocionais.
– Tricotomia: retirada dos pelos pubianos sem necessidade clínica. A prática não previne infecções e pode, ao contrário, aumentar o risco de complicações.
– Litotomia: posição em que a mulher permanece deitada, com as pernas elevadas e apoiadas. Pode ser considerada violência quando imposta sem necessidade clínica ou sem o consentimento da paciente.
– Manobra de Kristeller: técnica desaconselhada pelo Ministério da Saúde, que consiste em aplicar pressão sobre o fundo do útero para acelerar a saída do bebê.
Entre a vida e a morte
Após o episódio na clínica, Takara foi internada e transferida para outro hospital. Lá, um segundo médico informou que seria impossível recuperar o líquido amniótico perdido. “O bebê estava bem ainda. Com o coraçãozinho batendo e tudo”, lamenta. “De qualquer forma, eles estavam esperando o bebê morrer do que fazer alguma coisa”.
Dois dias depois, ela passou por uma cirurgia para retirada do feto já sem vida. No procedimento, porém, restos de placenta foram deixados em seu útero, o que provocou uma hemorragia grave. Sem atendimento imediato, Marta tentou conter o sangramento em casa com fraldas geriátricas até ser novamente hospitalizada, já em estado crítico.
“Eles tiveram que fazer outra curetagem e uma transfusão de sangue, porque, eu já tinha quase que morrido. Eles não encontravam pressão, não conseguiam achar acesso, nada”, relata. “Ainda fiquei com anemia depois, porque foi muito sangue perdido, por causa da hemorragia”.
Vida após a perda
Nos anos seguintes, ela e o marido, Rubens, tentaram engravidar novamente, mas enfrentaram dificuldades. O casal chegou a cogitar inseminação artificial, mas um tratamento simples, com vitaminas e um vasodilatador, acabou sendo suficiente: Marta deu à luz, de forma natural, aos gêmeos André e Bruna, hoje com 22 anos. Ela ficou viúva recentemente: Rubens morreu vítima de infarto neste mês de março.
Mesmo contando com o apoio da família, Takara afirma que levou muito tempo para processar o que aconteceu. Segundo ela, não houve qualquer suporte material ou emocional por parte da clínica ou do médico após a perda. “Fiquei, acho que quase um ano, não digo em depressão, mas incrédula. Muito revoltada”, lembra.
(Por Vanessa Centamori)


