
a de que a reprodução assexuada representa um caminho sem saída. Composta exclusivamente por indivíduos do sexo feminino e capaz de se reproduzir por clonagem, a chamada molinésia-amazônica (Poecilia formosa) não apenas sobreviveu por mais de 100 mil anos, ela prosperou geneticamente, contrariando as previsões teóricas.
Pesquisadores da Universidade de Missouri-Columbia, nos Estados Unidos, identificaram agora o mecanismo por trás desse fenômeno. O segredo parece estar em um processo conhecido como conversão genética, no qual uma cópia de um gene pode sobrescrever outra, funcionando como uma espécie de “reparo” do DNA ao longo das gerações. Os detalhes desse achado foram descritos em um artigo publicado no dia 11 de março na revista Nature.
Paradoxo evolutivo
No reino animal, a reprodução assexuada — na qual os organismos produzem descendentes geneticamente idênticos — costuma ser vista como desvantajosa. Sem a recombinação genética típica da reprodução sexuada, as mutações prejudiciais tendem a se acumular ao longo do tempo, reduzindo a capacidade de adaptação e aumentando o risco de extinção.
Modelos evolutivos sugerem que espécies que seguem esse caminho dificilmente sobreviveriam por mais de 10 mil anos. A molinésia-amazônica, porém, rompe essa expectativa, uma vez que sua linhagem remonta a mais de 100 mil anos.
Apesar de não incorporar DNA masculino, o peixe depende do esperma de machos de espécies próximas apenas para ativar o processo reprodutivo, em um fenômeno conhecido como ginogênese. Ainda assim, vale destacar que o material genético do macho não é efetivamente incorporado ao genoma da prole.
Conversão genética
Os especialistas acreditam que a espécie surgiu a partir de um raro cruzamento entre duas outras: molinésia-latipina (Poecilia latipinna) e molinésia-do-atlântico (Poecilia mexicana). Desde então, manteve um modo de reprodução clonal, gerando descendentes praticamente idênticos a cada geração.
Em 2018, cientistas mapearam seu genoma completo esperando encontrar sinais de deterioração genética. No entanto, o resultado encontrado surpreendeu justamente por apresentar um DNA saudável, comparável ao de espécies que se reproduzem sexualmente.
Tal estabilidade levantou uma questão central: afinal, como evitar o acúmulo de mutações prejudiciais ao longo de milhares de gerações sem recombinação genética? A resposta começou a emergir com o uso de uma tecnologia mais recente, o sequenciamento de leitura longa, que permite analisar extensos trechos de DNA com alta precisão.
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Com essa abordagem, os pesquisadores conseguiram comparar os dois conjuntos de genomas herdados da espécie híbrida original. Dessa forma, eles verificaram que os dois genomas evoluem em ritmos diferentes dentro das mesmas células. Um acumula mutações mais rapidamente, enquanto o outro permanece relativamente estável.
“Isso foi chocante porque contradiz tudo o que os cientistas pensavam saber sobre taxas de mutação”, explica o biólogo computacional Edward Ricemeyer, coautor da produção, em comunicado. “Ter dois genomas presentes dentro das mesmas células do mesmo peixe, realizando duas coisas muito diferentes em termos de taxas de mutação, foi chocante.”
O desequilíbrio é corrigido ao longo do tempo pela conversão genética. Nesse processo, mutações prejudiciais podem ser sobrescritas, enquanto variantes benéficas tendem a se espalhar — um efeito semelhante ao da seleção natural observada em organismos com reprodução sexuada.
Segundo os pesquisadores, o sistema opera em um equilíbrio delicado. Correção excessiva reduziria a diversidade genética, e correção insuficiente permitiria o acúmulo de danos. Na molinésia-amazônica, porém, esse mecanismo parece funcionar de forma ideal.
Novas perspectivas
A descoberta foi recebida com ceticismo inicial pela comunidade científica. “Quando submetemos nosso trabalho à revista Nature, os revisores não acreditaram em nós a princípio. Eles ficaram tão surpresos quanto nós e nos pediram para fornecer muito mais evidências”, relata Ricemeyer.
Com os dados comprovados, o estudo foi finalmente publicado. Suas conclusões ampliam o entendimento sobre os caminhos possíveis da evolução. Elas sugerem que a reprodução assexuada pode, em certos casos, desenvolver mecanismos capazes de contornar suas limitações clássicas.
“Entender melhor as diferentes formas como a reprodução ocorre nos ajuda a compreender melhor a nós mesmos, como chegamos até aqui e para onde podemos estar indo”, conclui Ricemeyer. Além de reformular conceitos da biologia evolutiva, os achados podem ter implicações em áreas como genética, agricultura e medicina, especialmente no estudo de mutações e reparo do DNA.
(Por Arthur Almeida)


