A presença de quelíceras em espécies de artrópodes é normalmente associada a quelicerados modernos, mas o espécime descrito no estudo publicado hoje (1º) na revista científica Nature trata-se de um predador marinho que viveu há 500 milhões de anos. É considerado o exemplo mais antigo já encontrado com as estruturas especializadas na forma de garras.
Garras ao invés de antenas
O primeiro passo para a descoberta surpreendente começou em um laboratório de Harvard, quando Rudy Lerosey-Aubril, um dos autores do estudo, limpava um fóssil de artrópode do Cambriano – período geológico marcado pelo surgimento de grande biodiversidade animal no planeta.
Ele percebeu que algo estava errado sobre características encontradas em animais desse período: ao invés de uma antena na cabeça, havia uma garra. O cientista tinha identificado o quelicerado mais antigo conhecido, o Megachelicerax cousteaui.
“Essa criatura possui uma anatomia super moderna para um animal de 500 milhões de anos. É um fóssil muito bonito. O mais incrível é que ele está em nossa coleção há décadas”, diz ele em entrevista à Science News.
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O fóssil da criatura foi encontrado na década de 1980 no Xisto de Wheeler, uma formação geológica cambriana localizada em Utah, nos EUA. Ele é conhecido por ser um depósito de fósseis excepcional, com muitos restos de criaturas marinhas primitivas sendo encontradas lá. O M. cousteaui provavelmente era uma delas, nadando perto do fundo do mar, onde pode ter usado suas quelíceras para predar outros organismos.
Um artrópode a frente de seu tempo
Antes da descoberta dos cientistas de Harvard, o quelicerado mais antigo datava de aproximadamente 480 milhões de anos. Com o novo espécime, não só o ramo inicial da árvore genealógica dos quelicerados foi estendido, mas também revela novas pistas da evolução desse grupo desde o período Cambriano.
Uma delas é que, apesar de as taxas de evolução terem sido notavelmente altas no período, isso não levou imediatamente ao domínio ecológico ou à diversificação dos ancestrais de aranhas e escorpiões.
Segundo diz Javier Ortega-Hernández, um dos autores do estudo, em comunicado, o sucesso evolutivo não depende apenas da inovação biológica: o momento e o contexto ambiental também importam.
“Megachelicerax demonstra que as quelíceras e a divisão do corpo em duas regiões funcionalmente especializadas evoluíram antes que os apêndices da cabeça perdessem seus ramos externos e se tornassem como as pernas das aranhas atuais. Isso reconcilia várias hipóteses concorrentes; de certa forma, todos estavam parcialmente certos”, afirma o cientista.
(Por Fernanda Zibordi)


