A nova espécie de sapo marsupial se destaca devido às fêmeas carregarem seus ovos em bolsas nas costas — Foto: Zootaxa

Uma nova espécie de rã em miniatura foi encontrada em um ecossistema montanhoso na Amazônia peruana, próximo à fronteira com o Equador. O anfíbio recebeu o nome científico de Gastrotheca mittaliiti, e teve a sua descoberta descrita em um artigo na revista Zootaxa na última quarta-feira (1).

A nova espécie é difícil de enxergar na natureza devido ao seu tamanho diminuto, estimado entre 2,7 a 3,3 centímetros. Mais complicado ainda é visualizar o motivo que o levou a ser considerado uma espécie inédita: a rãzinha carrega os ovos de seus filhotes em uma bolsa natural nas suas costas. Essas pequenas protuberâncias nas suas costas permitem que o anfíbio seja chamado de “sapo marsupial” ou “sapo canguru”.

As pequenas bolsas dorsais ainda possibilitam que ele amamente os seus filhotes ao invés de depender de ambientes aquáticos para o seu desenvolvimento. Essa independência pode ser uma vantagem para a espécie, já que os filhotes poderão ter parte do seu desenvolvimento próximo ao seu progenitor e mais afastados de predadores e espécies concorrentes.

Apesar desse cuidado natural, os pesquisadores alertam que o anfíbio está em alto risco. Isso porque o seu habitat tem sofrido os efeitos das mudanças climáticas e os impactos dos incêndios provocados por agricultores que desmatam a região. A situação é tão crítica que, mesmo durante os estudos e as análises, não foi possível delimitar qual é o número de exemplares dessa espécie na natureza.

Sapos “cangurus”?

Sapos marsupiais são considerados espécies únicas. A maioria deles são encontrados em florestas úmidas e altas das Américas Central e do Sul, que se estendem da Costa Rica até a Argentina, inclusive o Brasil.

Mas, se esses animais são tão raros, como é possível o possível identificá-los na natureza? Para isso, os pesquisadores fizeram análises de DNA e compararam o material com características de outras variedades do gênero Gastrotheca. As principais diferenças encontradas estão no tamanho menor dos machos e nos discos mais estreitos nos dedos das mãos e dos pés.

Pererecas-marsupiais são outra espécie conhecida por carregar seus ovos nas costas e depositar os girinos em água para terminarem de se desenvolverem — Foto: Edelcio Muscat
Pererecas-marsupiais são outra espécie conhecida por carregar seus ovos nas costas e depositar os girinos em água para terminarem de se desenvolverem — Foto: Edelcio Muscat

O grande diferencial é que, assim como os cangurus e os seres humanos, estes sapos possívelmente dão à luz filhotes vivos. Esse processo de reprodução é conhecido como viviparidade e evoluiu de forma independente entre diferentes espécies, incluindo anfíbios, répteis e mamíferos.

Mas a nova espécie vai além: o caso pode ser um exemplo real de reprodução ovoviviparidade — um tipo de reprodução onde embriões se desenvolvem em ovos alojados dentro do corpo materno, eclodindo antes ou logo após o parto. Neste caso, a alimentação gestacional ocorre por meio do vitelo do ovo e é por isso que algumas espécies conseguem dar à luz filhotes vivos. Elas fazem isso mantendo os filhotes em ovos dentro do corpo da mãe, permitindo que cresçam e se desenvolvam e, quando estiverem completamente formados e prontos para sair, eclodem e se dirigem para a água, ignorando o estágio de girino por completo.

Trata-se de uma forma de reprodução considerada rara entre os sapos devido às diferenças com o ciclo natural esperado. Nos sapos-pipa (Pipa pipa), por exemplo, o que acontece nesses casos é que, durante o acasalamento, o macho deposita dezenas de ovos fertilizados nas costas das fêmeas e, em seguida, sua pele cresce ao redor dos ovos, criando uma superfície semelhante a um plástico-bolha invertido.

As fêmeas das pererecas-marsupiais (Fritziana goeldii) também carregam os ovos nas costas, mas, na hora do nascimento, suas larvas procuram água acumulada em bromélias ou bambus ocos, onde depositam os girinos – que, finalmente, completam seu desenvolvimento.

(Por Júlia Sardinha)