É conhecido o nosso fascínio por histórias de true crime. Somos, ao mesmo tempo, assombrados e atraídos pelo fato de que uma criatura pertencente à nossa espécie, isto é, dotada das mesmas características que nos fazem humanos, seja capaz de cometer atos inimagináveis. Da mesma forma que desaceleramos na estrada ao passarmos por um acidente, buscamos pontos de observação segura dessas criaturas. A curiosidade mórbida, irresistível para muitos e muitas entre nós, nos leva a consumir todo tipo de conteúdo sobre figuras ditas monstruosas, essencialmente cruéis e más, portanto perigosas.
Daí vem a inundação de filmes, livros e séries do gênero. A maioria se propõe exatamente àquilo que buscamos: perfilar sociopatas, psicopatas e inimigos da humanidade em geral para revelar facetas aparentemente ocultas, motivações desconhecidas. Em suma, para nos colocar diante de figuras das quais, na vida real, não nos aproximaríamos sem correr riscos. É mais do que uma demanda de mercado, é uma necessidade essencialmente humana. No livro Morbidly curious: A Scientist Explains Why We Can’t Look Away [Morbidamente curiososos: Um cientista explica porque não conseguimos desviar o olhar], Coltan Scrivner, psicólogo e estudioso do assunto, explica que a curiosidade mórbida é a maneira encontrada pela natureza para nos colocar em situações nas quais podemos aprender, em segurança, sobre os perigos do mundo. Também diz respeito a como reagimos em momentos de medo e ansiedade.
Mas a multiplicação de obras nesse formato traz problemas. Massificadas, resultam inevitavelmente formulaicas, boa parte delas repetitivas, portanto parecidas. Fiando-se na certeza de que a mera apresentação de fatos (vez ou outra temperada com alguma liberdade especulativa) basta para segurar nossa atenção em relatos biográficos, escritores, roteiristas e realizadores no geral se entregam a um exaustivo trabalho de apuração — dando origem a títulos que se situam entre o jornalismo narrativo ou a ficção investigativa. São incontáveis os trabalhos de alto nível no sentido, como demonstra o exemplo recente de O adversário, do francês Emmanuel Carrère, sobre um sujeito que, em 1993, matou toda a família, incluindo cachorros. Mas mesmo esses trabalhos obedecem a convenções que os aproximam de outros títulos.
Diante disso, é mais do que bem-vindo um livro como A condessa ensanguentada (Ercolano), de Valentine Penrose, publicado no Brasil em fevereiro de 2026. Dedicado à condessa húngara Erszébet Báthory, a obra poderia se inserir na categoria true crime, pois se ampara em documentos para nos contar sobre esta que é de longe, ao lado do francês Gilles de Rais, a maior assassina da história. Mas dois pontos colocam o livro em um posto singular, sem vizinhos ou similares à vista: a distância temporal dos fatos e, em consequência, a imaginação de Penrose.
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Antes de tratarmos dessas questões, contemplemos a autora. A escritora, poeta e artista visual Valentine Penrose nasceu em 1898 no sudoeste da França e morreu em 1978 no Reino Unido. Em boa parte da vida, esteve ligada ao movimento surrealista, participando dele desde os primórdios e mantendo diálogos com André Breton e Georges Bataille. A seguir, fez parte, ao lado de autoras como Joyce Mansour e Anaïs Nin, de uma geração que se destacou com obras marcadas pelo erotismo, pelo humor negro e por uma qualidade mórbida. Já seu trabalho pictórico se deu principalmente com as colagens, nas quais trabalhou com temas como misticismo, ocultismo e aspectos do feminino. No âmbito pessoal, Penrose era dona de um espírito livre e falava abertamente de suas relações lésbicas.
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Traduzida e prefaciada por Flávia Falleiros, A condessa ensanguentada é, hoje, a obra literária mais conhecida de Penrose. E cristaliza os traços apresentados por sua poesia e seu trabalho pictórico. De início soa como um romance histórico, com um prólogo no qual a autora apresenta suas fontes de pesquisa: uma monografia sobre Báthory elaborada no século 18 por um padre jesuíta, Laszló Turóczi; os arquivos do interrogatório realizado no início do século 17 pelo paladino Thurzó, bem como trechos da sentença e das penas proferidas contra servos da condessa; e alguns livros do século 19.
Mas não demora para que o relato escape a qualquer convenção pré-estabelecida. Os documentos acerca de Báthory, nascida em 1560 e morta em 1614, são mesmo escassos, a própria Penrose o admite. E onde onde falta a documentação, cintilam a imaginação e a fantasia da autora. Seus esforços iniciais vão no sentido de expressar a beleza sinistra da aristocrata húngara: “Erszébet fascinava. Uma beleza tão jovem e perturbadora não cansa e jamais deixa de fascinar. Uma maneira de baixar as pálpebras com seus cílios castanho-escuros, uma maneira de debruçar sobre o gorjal engomado o contorno do rosto; e o desenho da boca, o desenho que o tempo quase apagou em seu retrato… Quando ela aparecia, seduzia e metia medo. As outras mulheres não eram nada ao lado dela, que era feiticeira e nobre devassa.”
Ora, que se saiba, existe apenas um retrato de Báthory, pintado por um artista desconhecido. E são abundantes as descrições de Penrose acerca da rotina da condessa. Muitas vezes, ela recorre a estruturas semânticas inquietantes, que evocam a imagética surrealista — mas tingida de tons sombrios, que são os únicos capazes de representarem com precisão a figura diante de nós: “Loba de ferro e de Lua, Erszébet, encurralada nas profundezas de seu ser pelo antigo demônio, sentia-se em segurança apenas quando coberta de talismãs, murmurando encantamentos que ecoavam nas horas de Marte e de Saturno”.
O mesmo vale para os espaços. Csejthe, o castelo nos Cárpatos escolhido por Erszébet como morada, está em ruínas há mais de dois séculos. Mas nenhum detalhe escapa à autora, seja real ou fabulado: erguia-se cercado por uma “floresta cheia de linces, lobos raposas e martas”, onde viviam “as fadas” e onde “os vampiros dormiam em segurança”. Seus subterrâneos formavam um “aterrorizador labirinto”, e nas paredes dos porões e das pavorosas lavanderias, onde Erszébet costumava se banhar no sangue e na dor de suas vítimas, “ainda se veem grafitos, datas e cruzes”, ali registradas por muitas das centenas de jovens torturadas e mortas sob ordens da condessa.
Neste ponto não há imaginação e fantasia: a própria Báthory registrou, em um caderno que felizmente foi encontrado, os nomes e algumas características das mais de seiscentas mulheres que pereceram em seus domínios. Eram quase sempre camponesas atraídas a Csejthe ou a outros de seus castelos por Dorkó e Ilona Jó, suas servas leais e tão cruéis quanto ela própria.
Penrose tampouco inventa os métodos utilizados para extrair o sangue das jovens — a imensa gaiola com pontas de ferro na parte de dentro, erguida por um complicado mecanismo, e sob a qual Erszébet se colocava para receber a seiva derramada da moça que se debatia, fustigada por uma barra de ferro em brasa; ou a “virgem de ferro”, engenhoca construída para a condessa por um renomado relojoeiro da época na forma de uma mulher nua que, quando ativada, sorria, “abraçava” a vítima e a perfurava com cinco punhais.
Também é conhecido o destino de Erszébet: isolada em Csejthe, viúva e afastada dos quatro filhos, entregue aos desvarios de sua vontade e auxiliada em tudo pelas servas e pela sinistra figura de Darvulia, de quem pouquíssimo se sabe, a condessa dobrou a aposta e o derramamento de sangue. Apesar das origens nobres de Erszébet, Thurzó, o paladino e governante da região, não teve alternativa a não ser condená-la. Mas a pena foi “branda”: prisão perpétua em um cômodo de seu próprio castelo. Já seus criados tiveram sentença muito pior, incluindo mutilações, decapitações e serem queimados vivos.
Disso tudo, um hábil investigador teria dado conta, resultando daí um memorável relato true crime medieval. Mas o livro de Valentine Penrose é outra coisa, maior e mais especial. É sobre uma figura aterradora cantada por uma voz poética que, em vez de suavizá-la ou redimi-la, apresenta-a como uma mulher singular por seu pendor à noite, à magia, à barbárie. Sim, Eszébet Báthory queria preservar a alvura da própria pele, por isso usava o sangue jovem como unguento. Mas isso, para Penrose, não bastava. A poeta e colagista francesa a via como uma mulher condenada por si própria à solidão, disposta a “ir ainda mais longe, até ter como único comparsa o crime”.
(Por Oscar Nestarez)


