A Esperança, tão celebrada como virtude, talvez seja apenas um véu que encobre nossa incapacidade de encarar o abismo da realidade. Na mitologia grega, quando Pandora abriu sua famosa caixa — ou jarro, como narram algumas versões — todos os males escaparam para o mundo: a dor, a velhice, a doença, a miséria. Apenas um elemento permaneceu aprisionado: Elpis, a personificação da Esperança.Mas o que significa esse detalhe? Seria a Esperança um dom deixado aos mortais, um consolo para suportar os males inevitáveis? Ou, ao contrário, uma ironia cruel dos deuses, aprisionando-nos em uma ilusão que nos impede de agir com coragem diante da verdade?
Nietzsche, ao interpretar esse mito, sugeriu que a Esperança é o pior dos males, pois prolonga o sofrimento humano. Afinal, não seria ela uma promessa sempre adiada, uma anestesia que nos mantém passivos diante da dor, esperando por um amanhã que nunca chega?
Assim, a humanidade se apoia nessa muleta invisível, caminhando com passos frágeis, sustentada por uma crença que talvez não passe de engano. Se todos os males foram soltos, por que deveríamos confiar justamente naquilo que ficou preso? Talvez a Esperança não seja um presente, mas uma prisão dourada, um eco dos deuses lembrando-nos que não temos força sem ilusões.E se ousássemos abandonar essa muleta? Se encarássemos o mundo sem o consolo de Elpis, talvez descobríssemos que a verdadeira liberdade não está em esperar, mas em agir — mesmo diante do caos, mesmo sem garantias de vitória.
Em 2026, temos desafios hercúleos; a caixa de Pandora contemporânea foi aberta: Como enfrentar um mundo pautado por Fake News? Como podemos ficar omissos diante de atrocidades como a guerra na Ucrânia? O massacre da nação palestina? O roubo das terras dos povos originários?A violência contra as mulheres? a homofobia recorrente e violenta? A insensibilidade diante da fome e da miséria que assola parte da humanidade e o racismo estrutural que vivenciamos?
E mesmo que os desafios pareçam intransponíveis, vamos continuar na luta insana de abrir os olhos dos que não enxergam e para contrariar Saramago, em “Ensaio sobre a Cegueira”,vamos teimar: “Não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Vamos ver!
*SÉRGIO EDUARDO CINTRA é professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá. Foi vereador, fundador e Diretor Executivo do Cuiabá-VEST (Funec); e secretário de Cultura de Cuiabá. Atualmente está servidor do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT).
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