Os ciclos decorativos devem ser restaurados nos próximos cinco anos por mais de 20 especialistas — Foto: Vatican Museums

Depois de mais de cinco séculos de desgaste, um dos tesouros menos conhecidos do Vaticano finalmente passará por sua primeira grande restauração. Os Museus do Vaticano deram início à recuperação da Loggia de Rafael Sanzio, um corredor de cerca de 65 metros de extensão localizado no segundo andar do Palácio Apostólico, residência oficial do papa, que terá sua decoração renascentista restaurada ao longo dos próximos cinco anos com a ajuda de tecnologia a laser.

O projeto é considerado o mais ambicioso já realizado na galeria, que abriga um ciclo de afrescos idealizado por Rafael e executado entre 1517 e 1519 por integrantes de seu ateliê, como Giulio Romano, Giovanni da Udine e Perin del Vaga. Ao todo, mais de 20 especialistas participarão da restauração, como aponta a Revista Smithsonian.

Rafael de Sanzio, ou simplesmente Rafael, foi um dos principais nomes da Renascença italiana. Pintor renomado, ele viveu entre os anos 1483 e 1520 e foi responsável por produzir afrescos que existem até hoje no Vaticano. Veja um exemplo abaixo:

Loggia de Rafael no Palácio Apostólico, Cidade do Vaticano — Foto: DEA/G. Cigolini
Loggia de Rafael no Palácio Apostólico, Cidade do Vaticano — Foto: DEA/G. Cigolini

Embora a Loggia esteja entre as realizações mais importantes da arte renascentista, ela permanece pouco conhecida pelo público. Isso porque o corredor faz parte da área privada do Palácio Apostólico e não faz parte do percurso comum de visitação dos Museus do Vaticano, sendo acessível apenas em ocasiões especiais.

Por que a restauração é tão delicada?

Ao contrário de muitas pinturas murais, os afrescos da Loggia são extremamente sensíveis à água e solventes químicos. Segundo os restauradores do Vaticano, métodos convencionais de limpeza poderiam danificar ainda mais as camadas originais de tinta.

Por isso, a equipe utilizará uma técnica de limpeza a seco usando lasers. Segundo os restauradores, o método foi escolhido porque o uso de água e solventes pode danificar ainda mais os afrescos. Antes da limpeza, as áreas em que a pintura está instável serão consolidadas. Depois, os trechos que precisarem de retoques receberão tratamento com métodos que permitem aos visitantes distinguir as partes originais das restauradas pela equipe.

Partes dos afrescos antes e depois da restauração — Foto: Vatican Museums
Partes dos afrescos antes e depois da restauração — Foto: Vatican Museums

Os métodos adotados não surgiram do zero, Entre 2019 e 2024, os Museus do Vaticano conduziram projetos-piloto em alguns trechos da Loggia para testar tanto os equipamentos quanto os protocolos de conservação que agora serão aplicados ao conjunto completo.

Segundo o The Art Newspaper, a degradação da Loggia de Rafael não é consequência apenas da passagem do tempo. Originalmente, o corredor era aberto para o exterior. Em 1813 e 1814, sob supervisão do escultor Antonio Canova, janelas foram instaladas entre as colunas para proteger o espaço. A solução, porém, acabou criando outro problema: a circulação de ar foi reduzida, favorecendo o acúmulo de calor e umidade.

Ao longo dos séculos, restauradores também recorreram à aplicação de cola para fixar áreas onde a tinta começava a se soltar. De acordo com Angela Cerreta, restauradora-chefe adjunta de pinturas e materiais de madeira dos Museus do Vaticano, com o envelhecimento desses materiais, os adesivos passaram a encolher e desprender justamente as camadas de pintura que deveriam preservar. “Se você não remover esses adesivos e películas protetoras, eles continuarão a remover a cor”, informou ao The Art Newspaper.

Para evitar que o problema volte a ocorrer, o projeto prevê a instalação de novas janelas capazes de manter condições microclimáticas estáveis dentro da galeria. Segundo a diretora dos Museus do Vaticano, Barbara Jatta, essa etapa é essencial para garantir que os afrescos permaneçam preservados após a restauração.

Especialistas farão limpeza a seco com lasers e, caso necessário, vão retocar as partes desgastadas — Foto: Vatican Museums
Especialistas farão limpeza a seco com lasers e, caso necessário, vão retocar as partes desgastadas — Foto: Vatican Museums

Um dos mais importantes ciclos decorativos do Renascimento

A Loggia foi decorada durante o papado de Leão X, quando Rafael recebeu a missão de criar um grande ciclo de pinturas inspirado tanto em episódios bíblicos quanto na arte da Antiguidade, como destaca o site Artnet.

Distribuídas em 13 vãos abobadados, as pinturas apresentam cerca de 50 cenas do Antigo e do Novo Testamento cercadas por elaborados elementos ornamentais, incluindo figuras híbridas de plantas, animais e seres humanos inspiradas nas pinturas descobertas na Domus Aurea, o antigo palácio do imperador Nero.

“As Loggias representam um renascimento do estilo e das técnicas da Antiguidade”, disse Jatta. Segundo ela, o espaço foi o destino preferido de gerações de clérigos, diplomatas e, sobretudo, de viajantes do Grand Tour e artistas que iam até o local em busca de inspiração na Antiguidade.

A restauração faz parte da iniciativa “Legado de Rafael: O Vaticano e Além”, coordenada pelo World Monuments Fund. O programa recebeu uma doação de US$ 14,3 milhões (cerca de R$ 73,8 milhões na cotação atual) da Fundação Stephen A. Schwarzman, dos quais US$ 5,5 milhões (cerca de R$ 28,4 milhões na cotação atual) serão destinados diretamente à restauração da Loggia.

Os recursos restantes apoiarão ações de documentação digital, produção de imagens em alta resolução, programas educacionais e treinamento de restauradores em parceria com a Universidade de Ciências Aplicadas e Artes do Sul da Suíça. A digitalização também permitirá que um público muito maior tenha acesso ao conjunto artístico, normalmente fechado à visitação por estar localizado na residência do papa.

Por Sarah Macedo