Voluntários encontraram mais de 400 sapatos enquanto limpavam poças de maré — Foto: Reprodução/Instagram (@beachacademywales)

É comum que o mar devolva para a costa objetos como garrafas, redes e fragmentos de madeira. No entanto, em Ogmore-by-Sea, no sul do País de Gales, as águas têm presenteado a população com achados particularmente curiosos: botas de couro. Centenas de exemplares de calçado preto, com aparência típica do século 19 e em surpreendente estado de conservação.

Desde setembro, voluntários que recolhem lixo na praia passaram a encontrar os sapatos em quantidade incomum. Em apenas uma semana no fim de dezembro, cerca de 200 botas apareceram concentradas em uma pequena área. No total, mais de 400 já foram contabilizadas. Muitas estavam incrustadas em sedimentos ou presas entre rochas, sendo libertadas pela erosão e pelas marés do Canal de Bristol.

Vestígios da Era Vitoriana

Os sapatos encontrados variam em formato e tamanho, mas compartilham características típicas da Era Vitoriana. São todos feitos de couro, majoritariamente preto, e apresentam solas fixadas com pregos — uma técnica de fabricação típica do século 19.

“Algumas das botas estão muito bem preservadas. Em certos casos é possível identificar claramente que se tratam de botas masculinas”, afirma Emma Lamport, diretora fundadora da Beach Academy, organização local voltada à educação ambiental, em entrevista à BBC Wales.

Intrigada com a quantidade e a recorrência dos achados, a instituição publicou fotos dos calçados nas redes sociais em dezembro, pedindo ajuda para identificar a sua origem. “Elas se parecem mais com sapatos de tempos antigos do que com modelos modernos. Estamos lentamente desenterrando-as de zonas de poças de maré onde estavam incrustadas em sedimentos ou presas em rochas. Não temos ideia de há quanto tempo estão ali”, diz o post.

A iniciativa desencadeou novos relatos. Uma moradora local comentou ter “colecionado baldes cheios de sapatos ao longo dos anos”, sugerindo que o fenômeno pode ser antigo, mas apenas recentemente ganhou visibilidade.

Lembranças da história

A principal teoria atualmente aceita, segundo a revista Smithsonian, aponta para um naufrágio ocorrido há cerca de 150 anos. Um navio cargueiro italiano teria colidido com a formação rochosa conhecida como Tusker Rock, afundando nas proximidades. Entre as mercadorias transportadas estariam grandes carregamentos de sapatos, que teriam sido gradualmente dispersos pelas correntes marítimas até o rio Ogmore, reaparecendo periodicamente na praia, sobretudo quando há maior erosão das margens.

Tusker Rock fica a aproximadamente 3 km do local onde os calçados são encontrados. Apesar de pequena — com menos de 0,5 km de extensão —, a formação tem fama sinistra. Desde o final do século 18, já esteve associada à morte de dezenas de marinheiros, tornando-se um símbolo dos perigos da navegação no Canal de Bristol, conforme contextualiza a Smithsonian.

Apesar das hipóteses, o enigma permanece em aberto. “Ficamos apreensivos porque não sabíamos de onde eles teriam vindo em números tão grandes”, declara Emma Lamport ao jornal britânico The Telegraph. “Quando se trata de algo tão antigo e histórico, a história por trás disso tudo continua sendo um verdadeiro mistério.”

(Por Arthur Almeida

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