A partir da polarização de grupos, os primatas passaram a adquirir comportamentos agressivos com indivíduos que antes conviviam juntos — Foto: USAID Africa Bureau/Wikimedia Commons

Em uma floresta tropical localizada no oeste de Uganda, um embate letal ocorreu com o maior grupo de chimpanzés selvagens conhecido, fazendo com que a tribo se dividisse permanentemente em dois. Esse é o primeiro registro de chimpanzés selvagens entrando em conflitos letais entre grupos de animais que antes eram socialmente unidos.

O evento foi documentado num estudo baseado em três décadas de observações e publicado nesta quinta-feira (9) na revista científica Science. Segundo os autores, os chimpanzés Ngogo (Pan troglodytes), habitantes de florestas do Parque Nacional de Kibale, viviam de forma coesa e dinâmica durante as duas primeiras décadas, mas passaram a apresentar sinais de polarização nos anos seguintes.

As mortes de vários machos adultos pode ter desencadeado uma falta de união nos grupos, que os consideravam relevantes para elos de ligação entre os indivíduos. Com a separação social e territorial, uma série de ataques letais entre as duas tribos foram registradas entre 2018 e 2024.

“O que é particularmente impressionante é que os chimpanzés estão matando antigos membros do grupo. As novas identidades de grupo estão se sobrepondo às relações de cooperação que existiam há anos”, diz Aaron Sandel, pesquisador da Universidade do Texas em Austin e principal autor do estudo, em comunicado.

Da separação aos conflitos

O conceito de guerra civil é comumente atribuído a seres humanos, mas a sequência de eventos ocorridos com os chimpanzés Ngogo são dignas de uma “guerra” entre primatas. Quando a polarização dos grupos se iniciou em 2015, eles assumiram uma divisão entre Ocidental e Central e passaram a se evitar.

Além das fotografias demarcando os dois grupos de chimpanzés nas fotos, é possível ver gráficos representando tanto as redes sociais de indivíduos (A) quanto o uso do território por eles (B) — Foto: Aaron A. Sandel/Science
Além das fotografias demarcando os dois grupos de chimpanzés nas fotos, é possível ver gráficos representando tanto as redes sociais de indivíduos (A) quanto o uso do território por eles (B) — Foto: Aaron A. Sandel/Science

“A segregação espacial acompanhou o aumento da polarização da rede. Em 2017, os chimpanzés ocidentais e centrais usavam territórios amplamente distintos, com sobreposição semelhante à de chimpanzés pertencentes a grupos distintos. O que antes era o centro de um território compartilhado havia se tornado uma fronteira”, descrevem os autores no artigo.

A partir de 2018, as agressões já recorrentes durante patrulhas territoriais passaram a se intensificar e causar mortes entre os grupos. Todos os ataques observados aconteceram após patrulhas de chimpanzés do Ocidental no território do grupo Central. Até 2020, os conflitos envolviam machos adultos, mas se estendeu aos filhotes no ano seguinte.

Entre 2018 e 2024, os cientistas registraram ataques letais a sete machos adultos e a 17 filhotes.

Razão da guerra

Divisões permanentes entre grupos de chimpanzés são extremamente raras, de forma que elas costumam ocorrer aproximadamente uma vez a cada 500 anos, segundo estudos genéticos.

O único caso de divisão permanente antes observada nesses primatas aconteceu no Gombe, na Tanzânia, durante estudos de primatologia feitos pela lendária bióloga britânica Jane Goodall na década de 1970. Ainda assim, o caso permanece sendo debatido por conta das condições de interação estabelecidas entre os pesquisadores e os chimpanzés na época.

Os autores do novo estudo sugerem que, de qualquer forma, as descobertas desses comportamentos em chimpanzés pode colocar em dúvida a ideia de que guerras humanas são impulsionadas essencialmente por marcadores culturais de identidade de grupos em conflito.

(Por Fernanda Zibordi)