Os neandertais são conhecidos como os “primos próximos” dos seres humanos modernos, tendo desaparecido como espécie há cerca de 40 mil anos. As razões para que o grupo fosse riscado do mapa variam desde mudanças climáticas até competição por recursos com o Homo sapiens. Agora, um estudo sugere um novo motivo: complicações fatais na gravidez.
Segundo os autores de uma nova pesquisa, publicada na revista científica Journal of Reproductive Immunology, desenvolvimentos anormais da placenta – associados a eclâmpsia e pré-eclâmpsia – poderiam ser mais comuns e letais nos neandertais. E isso teria impacto direto no declínio de suas populações.
Gravidez de risco
A placenta é um órgão temporário essencial para a formação do bebê durante a gravidez. É ela que irá proteger, transportar nutrientes e produzir hormônios para o feto, sendo nossa “primeira casa” nos nove meses de gestação. Para que cumpra sua função, a placenta precisa se implantar profundamente na parede uterina da mãe.
Caso isso não ocorra, o fluxo sanguíneo direcionado para o bebê é reduzido, colocando o corpo da mãe em condições de estresse, a pré-eclâmpsia. Esse estado e o agravamento dele – a eclâmpsia – são considerados raras em humanos, com apenas 1% de todas as gestações tendo sinais de eclâmpsia. De alguma forma ainda pouco conhecida, humanos evoluíram para ignorar os sinais de estresse da placenta, ajudando a proteger a mãe de sintomas de hipertensão.
O novo estudo defende que as mulheres neandertais não tinham esse mecanismo biológico de proteção. Através da comparação de registros médicos modernos e DNA de neandertais antigos, os pesquisadores identificaram diferenças genéticas que “podem ter afetado a forma como a pressão arterial relacionada à gravidez é regulada”, segundo comunicado.
“Sem essa salvaguarda, as taxas de pré-eclâmpsia poderiam subir para 10-20%, com eclâmpsia em 4-5%, comprometendo severamente o sucesso reprodutivo. Os neandertais, que possivelmente não possuem essa adaptação devido a divergências genéticas, provavelmente apresentaram incidências mais altas”, descrevem os autores do artigo.
Morte da espécie pelo nascimento
Outro fator que pode ter colaborado para a extinção dos neandertais é a organização da espécie em populações pequenas e isoladas, que apresentariam baixa diversidade genética e, assim, altas chances de complicações de formação dos fetos – como uma rejeição imunológica do corpo da mãe para o bebê.
A hipótese defendida é que as diferenças de mecanismo de proteção materna dos neandertais em comparação ao Homo sapiens pode ter amplificado tanto perdas reprodutivas quanto a mortalidade materna.
Isso teria um papel significativo no declínio demográfico da espécie extinta. O próximo passo nas pesquisas é testar variantes genéticas de neandertais para identificar possíveis “gatilhos” para sinais inflamatórios associados à pré-eclâmpsia.
(Por Fernanda Zibordi)

