Por séculos, o que sabemos sobre a alimentação das primeiras civilizações urbanas veio, sobretudo, de registros escritos, frequentemente produzidos por elites. Agora, uma nova abordagem científica está reescrevendo essa história a partir de uma fonte inesperada: o esmalte dos dentes.
Uma equipe de pesquisadores liderada por Matteo Giaccari, da Universidade Sapienza de Roma, na Itália, conseguiu reconstruir a dieta de habitantes comuns da antiga cidade suméria de Abu Tbeirah, no sul do atual Iraque, há cerca de 4,5 mil anos. A descoberta, descrita em um artigo publicado em 9 de março na revista PNAS, sugere que os hábitos alimentares na região da Mesopotâmia podiam ser bem diferentes do que indicam os textos.
Uma solução para um problema antigo
Estudar dietas do passado normalmente depende da análise de colágeno ósseo. O problema é que, em regiões áridas e salinas como o sul da Mesopotâmia, esse material raramente se preserva.
Assim, a solução encontrada foi recorrer ao esmalte dentário — a substância mais dura do corpo humano — capaz de conservar sinais químicos por milênios. “A análise de isótopos de zinco no esmalte dentário oferece uma alternativa viável”, destacam os autores no artigo.
Tais isótopos funcionam como marcadores da cadeia alimentar. Plantas, animais e humanos apresentam assinaturas químicas distintas, que se alteram de maneira previsível conforme o nível trófico. Ao analisá-las, os cientistas conseguem estimar quanto da dieta vinha de vegetais ou de proteínas animais.
Cardápio mesopotâmico
Os resultados apontam para uma dieta predominantemente baseada em cereais do tipo C3, principalmente cevada e trigo, que constituíam a base alimentar da região. A ingestão de proteína animal existia, mas em menor proporção, com destaque para carne de porco.
Isso sugere um padrão alimentar típico de populações não elitizadas, com acesso limitado a produtos de maior valor, como carne em abundância ou derivados animais. Ainda assim, a dieta era onívora, combinando vegetais e pequenas quantidades de proteína animal.
Talvez o dado mais surpreendente seja que, praticamente, não existem evidências de consumo de peixe marinho. Isso chamou a atenção dos especialistas em razão da localização da cidade antiga, que se encontra a apenas 30 km da costa do Golfo Pérsico.
Tabletes de argila da época frequentemente mencionam peixe e cerveja como elementos centrais da alimentação. No entanto, esses registros tendem a refletir práticas de elites administrativas ou rituais, não necessariamente o cotidiano da população comum.
A análise isotópica revela justamente esse contraste. Enquanto os textos sugerem uma dieta rica e variada, os dados químicos indicam uma alimentação mais simples, baseada em grãos, com consumo restrito de proteína animal e quase nenhum peixe.
Práticas familiares
O estudo também traz informações sobre a alimentação infantil. Os dados indicam que o aleitamento materno exclusivo durava cerca de seis meses, seguido por um período de desmame gradual que incluía leite animal e cereais.
Esses padrões são consistentes com práticas observadas em outras sociedades pré-industriais e até aparecem mencionadas em textos cuneiformes. Neles, eram registrados contratos de amas de leite com duração de anos.
Ao contornar as limitações impostas pela preservação do colágeno, a análise de isótopos de zinco abre novas possibilidades para a arqueologia, especialmente em regiões onde o clima dificulta a conservação de restos orgânicos. Mais do que reconstruir cardápios antigos, o método permite acessar aspectos mais amplos da vida cotidiana, como desigualdades sociais, práticas de criação de animais e hábitos familiares.
(Por Arthur Almeida)



