Quando, eu menino, aqui cheguei, em 1965, vindo de Cáceres, meus olhos foram inundados pelas palmeiras imperiais e pelos flamboyants da Avenida Getúlio Vargas. Cuiabá da antiga catedral dinamitada pela ignorância de poucos; Cuiabá da imponência neoclássica do Palácio da Instrução (inaugurado em 1914 para sediar a Escola Modelo Barão de Melgaço e a Escola Normal Pedro Celestino); do reservatório desativado Morro da Caixa D’Água Velha (1882 – 1940); Cuiabá do córrego “Prainha” recém canalizado, mas ainda não estava coberto e só o foi na administração Rodrigues Palma, escondendo o, agora, esgoto que corria a céu aberto; Cuiabá que, no longínquo 1965, quando o meu querido Dom Bosco recebia Pelé e o Santos no Dutrinha (6×2 para o Peixe); Cuiabá de paralelepípedos e ruas de terra com uns 60.000 viventes…
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Hoje, carregando consigo uma história rica; porém quase esquecida, e uma população que ultrapassa os 650 mil habitantes, distribuídos em 325 bairros, a “Cidade Verde”, neste 8 de abril, completa 307 anos. No entanto, a Capital mato-grossense enfrenta desafios que vão muito além das comemorações. A cidade precisa de um gestor que compreenda sua realidade cotidiana e que esteja disposto a enfrentar os problemas da cidade, em vez de se refugiar nas redes sociais. O momento exige menos discurso e mais ações concretas e eficazes; muito além do “Panem et circenses”.
Os problemas estruturais de Cuiabá são visíveis a qualquer cidadão que percorra suas ruas. A mobilidade urbana é caótica, com trânsito congestionado e transporte público insuficiente e de má qualidade, pontos de embarque vergonhosos. A infraestrutura básica, como saneamento (51% do esgoto é despejado in natura no Rio Cuiabá) e pavimentação asfáltica não alcançam todos os bairros, aliás, são 96 bairros com ruas sem asfalto, sem rede de águas pluviais e esgoto correndo a céu aberto. A falta de planejamento urbano provoca, anualmente, enchentes e alagamentos; enquanto a expansão desordenada compromete a qualidade de vida. São questões que não se resolvem com promessas; mas com políticas públicas consistentes e de longo prazo.
Além disso, os problemas conjunturais também pesam sobre a cidade. A saúde pública é assolada por filas intermináveis e os hospitais e asUPAs estão sobrecarregados e faltam profissionais para atender dignamente a população. Na educação,em que pese o avanço nos índices de alfabetização na idade correta, as escolas têm infraestruturas precárias e faltam investimentos na qualificação dos educadores. A ausência políticas eficazes de prevenção e integração social contribuem para o aumento da violência. A população sente diariamente os efeitos da má gestão, seja na dificuldade de acessar serviços básicos seja na percepção de abandono por parte do poder público. Esses problemas exigem respostas rápidas e pragmáticas e, sobretudo, planejadas; não discursos inflamados e, rotineiramente, falaciosos.
Ou o prefeito Abílio desce do “palanque” e encara a realidade de Cuiabá ou a cidade continuará de mal a pior. Quem perde com essa postura é a população, que vê seus direitos negligenciados e suas necessidades ignoradas. A capital mato-grossense, com sua história e importância, merece mais do que marketing político: precisa de liderança comprometida com soluções reais. Afinal, Cuiabá não pode ser apenas palco de discursos; precisa ser espaço de transformação e de dignidade para seus cidadãos. Cuiabá, em seus 307 anos,tem pouco a comemorar e muito o que denunciar. O negacionismo da diversidade cultural, social, política e econômica voltou à baila e parece que estamos reencarnando a surreal Macondo, de “Cem anos de Solidão” (Gabriel Garcia Márquez): “…pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou miragens) seria varrida pelo vento e exilada da memória dos homens (…) e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde tempos imemoriais e para sempre, porque as raças condenadas a cem anos de solidão não têm uma segunda chance na Terra.”
*SÉRGIO EDUARDO CINTRA é professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá. Foi vereador, fundador e Diretor Executivo do Cuiabá-VEST (Funec); e secretário de Cultura de Cuiabá. Atualmente está servidor do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT).
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