Vestígios do Fórum Romano encontrados na escavação arqueológica do Gran Hotel Barcino — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona

Uma intervenção aparentemente rotineira para instalar um elevador no subsolo de um hotel no centro histórico de Barcelona, na Espanha, acabou revelando um dos achados arqueológicos mais importantes da cidade nas últimas décadas. Durante as obras de ampliação do Gran Hotel Barcino, arqueólogos descobriram um extenso trecho do pavimento do antigo fórum romano de Barcino — a praça pública que constituía o coração político, administrativo e religioso da colônia fundada no final do século 1 a.C.

A descoberta ocorreu no interior da histórica Casa Requesens, um edifício gótico datado dos séculos 14 e 15, onde hoje funciona o hotel. O achado inclui um conjunto monumental de lajes de pedra de Montjuïc preservadas em excelente estado e datadas entre aproximadamente 15 e 10 a.C., período associado à fundação da colônia romana de Barcino.

Em comunicado publicado no dia 24 de fevereiro, o Serviço de Arqueologia de Barcelona, responsável pela supervisão das escavações, descreve que o pavimento ocupa cerca de 42 m² e constitui o primeiro exemplo conhecido desse tipo de estrutura monumental na colônia romana. A importância da descoberta vai além da raridade do material, ela altera a compreensão da organização urbana da Barcelona antiga.

Descoberta iniciada por um buraco de elevador

A intervenção arqueológica no local começou em 2023, quando operários iniciaram a escavação de um pequeno poço destinado a um elevador planejado para o edifício. A abertura inicial abrangia apenas cerca de 6 m² e contava com monitoramento arqueológico preventivo padrão.

O silo medieval posterior também foi descoberto no mesmo local — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona
O silo medieval posterior também foi descoberto no mesmo local — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona

No entanto, a aproximadamente 2,5 metros de profundidade, surgiram enormes lajes de pedra perfeitamente alinhadas sob camadas medievais e modernas. Reconhecendo a importância do achado, os proprietários do hotel decidiram ampliar a área de escavação para cerca de 80 m² e financiar integralmente um projeto arqueológico que se estendeu por dois anos, entre junho de 2023 e julho de 2025, lembra o blog Ancient Origins.

O que emergiu dali foi a primeira evidência física clara do pavimento original do fórum de Barcino, a praça central que organizava a vida pública da colônia romana fundada durante o reinado de Augusto, primeiro governante do Império Romano.

Mudança no mapa da cidade romana

As lajes descobertas impressionam pelo tamanho e pela engenharia. Alguns blocos chegam a medir cerca de 1,5 metro de comprimento por mais de 1,1 metro de largura, com espessura variando entre 18 e 35 centímetros. Essa variação não era acidental: os construtores romanos ajustavam a espessura das peças para compensar irregularidades do substrato rochoso e garantir uma superfície perfeitamente nivelada.

Poço romano no pátio — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona
Poço romano no pátio — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona

Mais importante ainda é a orientação dessas pedras. Durante décadas, arqueólogos acreditavam que o fórum de Barcino estava alinhado com o cardo, o eixo principal norte-sul das cidades romanas. O novo pavimento demonstra o contrário: ele segue o alinhamento do decumanus, o eixo leste-oeste da malha urbana.

Isso significa que o fórum se estendia do mar em direção às montanhas, e não paralelamente à costa, como supunham os estudiosos até agora. Essa mudança aparentemente técnica implica uma revisão significativa do planejamento urbano da antiga Barcelona.

Dois milênios de história

Os achados não pararam no pavimento. Ao lado das lajes, arqueólogos identificaram estruturas de concreto romano, dois poços quadrados com mais de 2,6 metros de profundidade e um sistema hidráulico que conectava os reservatórios por meio de um sifão.

Essa infraestrutura provavelmente alimentava fontes ornamentais ou espelhos d’água instalados no fórum, indicando que o espaço era decorado de forma monumental. Mais de 150 fragmentos de mármore importado de diferentes regiões do Mediterrâneo — incluindo Itália, Grécia e Egito — também foram encontrados, sugerindo que edifícios e monumentos da praça eram ricamente revestidos.

Até então, o único elemento arquitetônico associado com segurança ao fórum era o remanescente do Templo de Augusto de Barcelona, cujas colunas ainda podem ser vistas na cidade.

O hotel incorporou as ruínas a um espaço museológico no subsolo do edifício — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona
O hotel incorporou as ruínas a um espaço museológico no subsolo do edifício — Foto: Serviço de Arqueologia da Prefeitura de Barcelona

O sítio arqueológico também revelou evidências da longa transformação do espaço urbano ao longo dos séculos. Fragmentos cerâmicos encontrados nos poços indicam que o fórum foi abandonado por volta do século 6 d.C., enquanto sinais de reutilização de materiais sugerem que sua função cívica começou a desaparecer já no século 5.

Sobre essas camadas romanas surgiram estruturas domésticas da Antiguidade Tardia, adaptações medievais e até um silo de armazenamento de grãos do período gótico, uma sequência arqueológica que registra cerca de 1.500 anos de ocupação contínua no mesmo local.

Entre os achados está ainda a metade de um pedestal romano reutilizado em uma parede posterior. A inscrição preservada dedica a peça a Luci Licini 2º, um escravizado liberto do século 2 d.C. que aparentemente desfrutava de grande prestígio na cidade.

Um museu sob o hotel

Diante da importância dos achados, o projeto arquitetônico do hotel foi completamente adaptado. A rede incorporou as ruínas a um espaço museológico no subsolo do edifício, estabilizando a estrutura histórica com micropilares e projetando um sistema de iluminação e interpretação para o público.

Assim, os visitantes poderão observar diretamente o pavimento romano, as estruturas hidráulicas, construções da Antiguidade Tardia e o silo medieval, visualizando em um único ambiente as sucessivas camadas históricas que transformaram o local ao longo de dois milênios.

Segundo o Serviço de Arqueologia de Barcelona, o sítio representa um exemplo raro de cooperação entre iniciativa privada e preservação patrimonial. Além de integrar as ruínas ao hotel, estão previstas visitas guiadas organizadas em parceria com a prefeitura para permitir que o público tenha acesso ao local.

Por Arthur Almeida)

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