Políticos e empresários de Mato Grosso articulam a criação de uma comunidade no interior do estado que seria uma homenagem ao ministro do STF Gilmar Mendes —por isso, o local ganhou o apelido de “Gilmarlândia”.
O que aconteceu
Proposta foi apresentada durante evento na Fazenda Bom Futuro, em 21 de fevereiro, com a participação de Gilmar. O projeto prevê a criação de um distrito ou de uma cidade, inicialmente batizada de Nova Aliança do Norte.
Ideia é encampada pelo empresário do agronegócio Eraí Maggi, conhecido como o “rei da soja”. O local, a cerca de 300 quilômetros ao norte de Cuiabá, deverá atender à crescente demanda por infraestrutura da região agrícola.
A localidade está a mais de 100 quilômetros de Diamantino, cidade natal do ministro do Supremo. Defensores da proposta afirmam que moradores da região precisam viajar longas distâncias para ter acesso a serviços básicos.
Durante o lançamento, o ministro defendeu esforços de instituições públicas e privadas para que o projeto saia do papel. “Eu acho importante essa iniciativa de ter um núcleo de apoio para as famílias e pessoas que trabalham nessa região. (…) Isso precisa de ter um esforço bastante grande de todas as pessoas e de todas as instituições”, disse.
A ideia de chamar o lugar de “Gilmarlândia” foi uma brincadeira de Eraí Maggi, segundo liderança local. De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Diamantino, Altemar Kroling, o nome sugerido faz referência a outro distrito de Diamantino, Deciolândia.
“A demanda pela criação do distrito tem mais de 20 anos. Ali é uma região que fica entre São José do Rio Claro, Diamantino e Campo Novo dos Parecis. Faz falta um ponto de apoio para os trabalhadores da região.”
Altemar Kroling, presidente do Sindicato Rural de Diamantino.
A família de Gilmar Mendes aparece como proprietária de cinco fazendas na região. Estreito do Rio Claro, Julião, Buriti Grande, Rancho Alegre e Utiarit pertencem à empresa GMF Agropecuária LTDA, que tem o ministro no quadro societário, além de Ailton Alves França (cunhado de Gilmar) e os irmãos de Gilmar, Chico Mendes (prefeito de Diamantino) e Maria da Conceição Mendes França.

Gilmar e Maggi doaram 100 hectares de terra cada um para a construção de Nova Aliança do Norte. No local, serão construídas “casas populares e toda estrutura necessária para facilitar a vida das pessoas”, disse o presidente da ALMT (Assembleia Legislativa de Mato Grosso), deputado estadual Max Russi (PSB), ao UOL.
Um grupo de cerca de 10 fazendeiros locais, que juntos plantam mais de 250 mil hectares de soja e algodão na região, estão se reunindo para viabilizar a comunidade, diz Kroling. A ideia seria criar infraestrutura para atrair mão de obra para as fazendas, que atualmente empregam cerca de 2.500 trabalhadores.
A partir da formalização de um distrito ou cidade, a região ganhará infraestrutura pública. “Essa região está longe das cidades, obrigando as crianças a saírem entre 2 e 3 horas da manhã para estudarem e só voltando por volta das 18 horas. Além de também dificultar o acesso das pessoas ao atendimento médico”, disse Russi.
Projeto está em fase inicial. Ainda precisa passar por estudos de viabilidade técnica e consultas públicas.
Impasse sobre criação de distrito ou cidade
Prefeitura de São José do Rio Claro afirma que será criado um distrito, não uma cidade. A declaração foi dada pelo prefeito Levi Ribeiro (PL), em entrevista à rádio Bambina FM, em meio a questionamentos sobre os custos gerados pela criação de municípios.
Sede do distrito deve ficar em São José do Rio Claro. Conversas nesse sentido com a administração de Diamantino, comandada pelo prefeito Chico Mendes (União Brasil), estão em andamento, afirmou Ribeiro, afastando rumores de que a área seria absorvida por Diamantino, cidade vizinha.
Possibilidade de Nova Aliança do Norte vir a ser uma cidade enfrenta críticas sobre impacto fiscal. Isso porque a criação de um município poderia gerar custos permanentes ao estado e à União, uma vez que não teria arrecadação suficiente para custear sua própria estrutura administrativa, como a prefeitura, a Câmara de Vereadores e outros órgãos públicos.
Instalação do distrito terá “custo zero” para os municípios. Ainda de acordo com o prefeito de São José do Rio Claro, empresários ficarão responsáveis por construir infraestruturas como escolas e postos de saúde. Apenas os custos com funcionários que atuarão nessas localidades caberão à Prefeitura.
Não vamos aceitar que vire uma cidade, porque o município vai perder arrecadação. A infraestrutura todinha será por conta dos empresários. Eles é que vão instalar e entregar para nós administrarmos.
Levi Ribeiro, prefeito de São José do Rio Claro (MT) (Fonte: Uol)

