Muito antes do surgimento da escrita, humanos pré-históricos já organizavam linhas e formas de maneira estruturada. Um novo estudo publicado na revista científica PLOS ONE, em 11 de fevereiro, mostra que populações do sul da África, há cerca de 60 mil anos, gravavam padrões geométricos complexos em cascas de ovos de avestruz usadas como recipientes portáteis de água, possivelmente os exemplos mais antigos conhecidos de organização geométrica sistemática.
Pesquisadores analisaram 109 fragmentos de cascas de ovos encontrados em sítios arqueológicos na África do Sul e na Namíbia. No total, as peças preservam 1.275 linhas gravadas. A análise estatística e geométrica revelou padrões consistentes: 83,4% das linhas aparecem em pares paralelos, e cerca de um terço dos encontros entre linhas ocorre em ângulos retos.
Os resultados indicam que esses desenhos não eram simples rabiscos. Segundo os autores, eles seguiam princípios geométricos claros, incluindo paralelismo, ortogonalidade e repetição espacial.
“Estamos falando de pessoas que não se limitavam a desenhar linhas, mas as organizavam segundo princípios recorrentes, paralelismos, grades, rotações e repetições sistemáticas: uma gramática visual embrionária”, afirmou Silvia Ferrara, pesquisadora da Universidade de Bolonha e uma das autoras do estudo, em comunicado.
Em mais de 80% dos fragmentos analisados, os pesquisadores identificaram simultaneamente alinhamento regular das linhas, presença de ângulos retos e espaçamento consistente, um conjunto de características que sugere planejamento prévio das figuras.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/m/p/1Y7mtHShunwVt7RBIuqQ/image-730-c6c980527bd9f0f8018703a6adcfa783.jpg)
“Não se trata apenas de um processo de repetição de sinais: há um verdadeiro planejamento visoespacial, como se os autores já tivessem uma imagem geral da figura em mente antes de gravá-la”, disse Ferrara.
As gravuras incluem faixas hachuradas, grades e padrões em forma de diamante, produzidos por meio de operações cognitivas como rotação, translação, repetição e sobreposição de sinais. Os autores do estudo descrevem esse conjunto de regras visuais como uma espécie de “gramática geométrica”.
De acordo com a pesquisadora Valentina Decembrini, coautora do trabalho, a capacidade de organizar formas simples em sistemas estruturados revela uma aptidão fundamental para o pensamento abstrato.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/7/z/Y3FDLVQdWGAW13ltdf8w/journal.pone.0338509.g006.png)
“Transformar formas simples em sistemas complexos seguindo regras definidas é uma característica profundamente humana que tem marcado nossa história ao longo de milênios, desde a criação de decorações até o desenvolvimento de sistemas simbólicos e, por fim, a escrita”, afirmou.
Para os cientistas, essa habilidade simbólica pode ter sido essencial para o sucesso do Homo sapiens na expansão para fora da África. A criação de padrões visuais organizados indica não apenas senso estético, mas também capacidades cognitivas avançadas ligadas à comunicação e ao raciocínio abstrato.
(Por Carina Gonçalves)

