Uma decalque (à esquerda) de um fragmento de osso oracular chinês revela uma inscrição que se traduz como 'Haverá um desastre?'. O caractere para 'desastre' assemelha-se a uma série de ondas. Outra decalque (à direita) de um fragmento de osso oracular chinês revela uma inscrição no lado esquerdo que se traduz como 'Esta chuva é auspiciosa?' — Foto: Guo Moruo

A curiosidade em saber sobre o futuro já era comum na Antiguidade. Na China, “ossos oculares” feitos de cascos de tartaruga e ossos de ombro de boi eram usados para “prever” mudanças climáticas que atingiram a dinastia Shang há 3 mil anos. Os itens foram alvo de um estudo publicado na revista Science Advances no último dia 4 de março.

Acontece que, naquela época, quedas abruptas na população foram, provavelmente, resultado de um aumento mortal de tufões e eventos climáticos extremos pela região. Com essas suposições, o novo estudo combinou textos antigos, evidências arqueológicas e modelagem paleoclimática para descobrir o motivo por trás do número volumoso de mortes.

Os pesquisadores correlacionam as informações aos costumes e superstições culturais da época, como os textos de adivinhação inscritos nos “ossos oculares”. Os artefatos contêm a inscrição para a pergunta: “Haverá um desastre?”, com o caractere “desastre” gravado de modo semelhante à silhueta de uma série de ondas. Outro inscrito diz: “Esta chuva é auspiciosa?”.

Fim de uma dinastia

Os ossos são vestígios da dinastia Shang, conhecida por possuir as evidências mais antigas referentes à escrita. Por quase seis séculos – de 1600 a 1046 a.C. –, os Shang governaram o vale do Rio Amarelo, nas planícies centrais chinesas que, posteriormente, foram atingidas pelos desastrosos eventos climáticos.

O estudo é o primeiro a revelar ligações entre a atividade de tufões costeiros, chuvas extremas no interior, inundações e mudanças sociais por volta de 1050 a.C.

A equipe contabilizou as ocorrências de inscrições relacionadas às mudanças climáticas da época em mais 55 mil fragmentos de “ossos oculares” datados dos dois últimos séculos do período Shang. Esses artefatos incluíam uma quantidade maior de adivinhações relacionadas a fortes chuvas e desastres hídricos iminentes naquele período.

Para os pesquisadores, a preocupação generalizada com a previsão divina do clima foi o que levou ao rápido declínio populacional nos territórios comandados pela dinastia Shang, que correspondem hoje às áreas centrais da China.

Alterações temporais na atividade de tufões, tamanho da população (Planícies Centrais) e número de sítios arqueológicos (Planície de Chengdu) durante o Holoceno médio-tardio — Foto: Science Advances
Alterações temporais na atividade de tufões, tamanho da população (Planícies Centrais) e número de sítios arqueológicos (Planície de Chengdu) durante o Holoceno médio-tardio — Foto: Science Advances

Mas as áreas ocupadas pelos Shang não foram as únicas a se esvaziarem. A equipe examinou dados arqueológicos de camadas de inundação na Planície de Chengdu, localizada a sudoeste das Planícies Centrais e ocupada pelo reino de Shu, contemporâneo à dinastia de Shang

Nessa região, os pesquisadores encontraram evidências de edifícios danificados por inundações datados de 950 a.C. e diques destruídos por inundações ocorridas 450 anos depois. Outro detalhe é que os sítios arqueológicos na Planície de Chengdu diminuíram em número e se concentraram geograficamente em áreas relativamente elevadas, sugerindo que as pessoas estavam se mudando para terrenos mais altos.

Esse aumento pluviométrico, sobretudo nas áreas centrais, pode ter sido resultado da passagem dos fortes tufões, de acordo com os cientistas. A modelagem paleoclimática feita por eles mostrou que esse fenômeno climático se deslocou para o norte entre 1850 e 1350 a.C., quando a crise climática afetou a dinastia Shang. Já entre 850 e 500 a.C., quando os tufões se deslocaram para oeste, a dinastia Shu é quem arcou com as intensas inundações.

Embora os pesquisadores não tenham certeza de como exatamente o clima antigo afetou as civilizações do interior da China, eles sugeriram que eventos climáticos extremos induzidos por tufões eram uma preocupação tão grande no passado quanto são hoje.

(Por Júlia Sardinha)

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