Durante os preparativos para uma construção imobiliária em Londres, pesquisadores desenterraram várias bolinhas de gude, um lápis e, o mais surpreendente, uma tábua de ardósia reutilizável, com letras ainda gravadas na sua superfície. O que chama a atenção é quem utilizou esses objetos: crianças da era vitoriana.
Em comunicado emitido em 12 de janeiro, o Museu de Arqueologia de Londres (MOLA), líder das escavações, afirmou não ser comum encontrar artefatos arqueológicos que tenham uma ligação direta com crianças, “mas aqui ficamos encantados por encontrar evidências tanto de atividades escolares quanto de brincadeiras”.
A escavação também revelou artefatos que datam da ocupação romana de Londres (entre o século 1 e 5 ) até o período vitoriano (1837 a 1901), incluindo peças de vidro, cerâmica e cachimbos de barro. No entanto, os arqueólogos ainda não sabem a idade exata dos artefatos, nem o que está escrito nos rabiscos preservados na tábua, possivelmente usada como lousa escolar.
Alex Blanks, da MOLA, disse que a equipe de pesquisadores tem estudado mais a fundo esses registros e que esperam compartilhar mais informações em breve.
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Aqui jaz uma escola e um asilo
Localizado no leste de Londres, o sítio arqueológico em breve abrigará o SEGRO Park Wapping, um novo centro industrial e de logística. As escavações revelaram os restos de uma capela, casas de caridade e um prédio escolar, onde funcionou uma escola gratuita para crianças carentes no início da era moderna (1500-1800).
Ali também era uma área residencial para idosos pobres. A equipe escavou ainda fileiras de casas geminadas e estruturas associadas, incluindo fossas sépticas revestidas de tijolos e cheias de lixo de bares locais, poços e sumidouros.
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A escola e os asilos são mencionados, pela primeira vez, no levantamento de Londres feito por John Stow, em 1598, como sendo “para instrução de 60 crianças pobres, um professor e um auxiliar (…) e também asilos para 14 idosos pobres”. Ambos os edifícios foram fundados em 1536, por Nicholas Gibson, o então xerife da cidade.
Após a sua morte, em 1553, sua viúva, Dame Avice Knyvet, doou mais dinheiro para apoiar a escola e o asilo. A escola existe até hoje, embora tenha se mudado para o centro suburbano de Upminster.
Também foi descoberto que os primeiros habitantes das casas eram, em sua maioria, mulheres idosas e viúvas. Porém, registros revelaram que homens começaram a viver no local por volta de 1720. Cada residente recebia um pequeno auxílio de seis xelins e oito pences (equivalente, hoje, a cerca de R$5,00), além de trimestralmente um quarto, um porão e um pequeno jardim.
Uma nova história social
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Em entrevista à BBC News, Blancks disse que as escavações revelaram um “pequeno microcosmo de toda uma comunidade”. Isso porque os arqueólogos encontraram vários vestígios além dos objetos escolares e dos lares para os idosos. Entre eles, o lacre de uma garrafa de vinho produzida por uma vinícola francesa de alto prestígio na época, chamada Château Margaux.
A descoberta foi uma surpresa para os arqueólogos, uma vez que o local era considerado uma região “superlotada e perigosa”, não sendo comum que pessoas de classes mais altas a frequentassem.
“Descobertas como essa estão revelando uma história social mais complexa do que as fontes contemporâneas, muitas vezes tendenciosas, no fazem acreditar”, observou Blanks. “Na realidade, era uma área muito diversificada. Evidências arqueológicas sugerem que pessoas de diversas classes sociais podem ter vivido na área e desfrutado de alguns dos mesmos luxos que os mais ricos da sociedade”.
(Por Júlia Sardinha)

