JANNIRA LARANJEIRA
Maio Laranja não é apenas uma campanha no calendário. É um alerta urgente que precisa atravessar o silêncio e chegar dentro de cada casa. É impossível ignorar uma realidade tão dura: a maioria dos abusos contra crianças e adolescentes acontece justamente onde elas deveriam estar mais seguras.
Todos os anos, milhares de casos são registrados no Brasil. Mas eu afirmo, com a experiência de quem vive essa realidade de perto, que esses números ainda não refletem a verdade. A maioria das vítimas nunca denuncia. E não denuncia porque, na maior parte das vezes, o agressor não é um desconhecido. É alguém próximo, alguém de confiança, alguém que ocupa um lugar de afeto e autoridade.
Isso torna tudo mais difícil. O abuso raramente começa com violência explícita. Ele se constrói aos poucos, com manipulação, com aproximação calculada, com o silêncio imposto. Por isso, proteger uma criança vai muito além de vigiar. É estar atento aos sinais, é criar um ambiente de confiança, é escutar com sensibilidade e, acima de tudo, acreditar.
Nós, como sociedade, precisamos romper com o tabu que ainda cerca esse tema. Fingir que isso não acontece é, na prática, permitir que continue acontecendo. O silêncio protege o agressor, nunca a vítima. Cada adulto tem a responsabilidade de agir, de denunciar, de orientar e de proteger.
Eu reforço: nenhuma suspeita deve ser ignorada. O Disque 100 está disponível para denúncias anônimas e pode ser o primeiro passo para salvar uma vida. Não é preciso ter certeza absoluta para agir. Basta a dúvida e o compromisso com a proteção.
Maio Laranja é um chamado à consciência, mas também à ação. Não podemos falhar com nossas crianças e adolescentes. Proteger quem não consegue se defender sozinho não é uma escolha, é um dever de todos nós.
Por Jannira Laranjeira – Delegada de Polícia Civil
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