Antes de se tornar o deserto gelado e avermelhado que é hoje, Marte pode ter sido um mundo dominado por água. Pelo menos, essa é a conclusão de um novo estudo liderado pela Universidade de Berna, na Suíça, e publicado na revista npj Space Exploration no dia 7 de janeiro, que identificou marcas inequívocas de antigos deltas de rios no planeta — formações geológicas que, na Terra, só surgem quando cursos d’água desembocam em oceanos.
Tais evidências se concentram no Valles Marineris, um sistema de cânions colossal que corta o equador marciano. Ao analisar imagens de alta resolução do sudeste do Coprates Chasma, uma de suas regiões, verificou-se a existência de depósitos com frente de escarpa, que são camadas de sedimentos com geometria típica de deltas em leque, formados quando rios transportam sólidos até uma massa de água parada.
O achado reforça a ideia de que, no passado, o planeta já foi coberto por um grande corpo oceânico e viveu uma fase mais quente, úmida e potencialmente habitável. Essa interpretação é considerada particularmente robusta porque todas as estruturas foram encontradas na mesma altitude, o que está tipicamente associado à presença de um nível d’água estável, equivalente a uma antiga linha costeira.
“Quando mapeamos essas estruturas, não vimos apenas formas isoladas, mas um padrão coerente, compatível com a foz de rios em um oceano”, explica Ignatius Argadestya, que esteve à frente do estudo, em comunicado compartilhado na segunda-feira (12). Ele destaca que a semelhança com deltas terrestres clássicos é difícil de ignorar.
Tecnologia orbital como máquina do tempo
As conclusões foram possíveis graças à combinação de dados de várias missões espaciais, como da câmera CaSSIS, do ExoMars Trace Gas Orbiter, desenvolvida sob liderança da Universidade de Berna, além de instrumentos das sondas Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), e Mars Reconnaissance Orbiter, da Nasa. Juntos, esses materiais permitiram uma reconstrução geomorfológica detalhada do passado marciano.
Para Nicolas Thomas, professor da Universidade de Berna e responsável científico pelo desenvolvimento da CaSSIS, o estudo demonstra o valor científico d imagens orbitais de alta resolução. “Esses dados permitem aplicar, em Marte, os mesmos conceitos geológicos que usamos para interpretar paisagens terrestres”, afirma o especialista.
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“Não estamos apenas sugerindo que havia água”, explica Fritz Schlunegger, professor de Geologia Exógena da Universidade de Berna. “Estamos mostrando onde os rios terminavam e onde começava o oceano.”
Hoje, esses deltas fossilizados estão parcialmente cobertos por dunas moldadas pelo vento, mas sua arquitetura original permanece visível o suficiente para permitir interpretações consistentes. Trata-se, segundo os autores, do maior e mais profundo oceano já documentado na história geológica de Marte.
Um planeta mais próximo da Terra
A confirmação de um oceano de longa duração reforça a possibilidade de que Marte tenha oferecido condições favoráveis à vida em algum momento de sua história, lembra o portal IFLScience. Água líquida persistente, transporte de sedimentos e ambientes costeiros são considerados cenários propícios para processos biológicos, ainda que não constituam prova direta de vida.
“Os resultados mostram que Marte já foi um planeta azul, e também lembram que a água, mesmo em escala planetária, pode desaparecer”, aponta Argadestya. Por isso, o próximo passo da pesquisa será investigar a composição mineralógica desses antigos deltas, buscando entender como a água interagiu com as rochas e que tipo de intemperismo ocorreu.
Ao reconstruir esse passado perdido, os cientistas esperam compreender melhor a história de Marte. Mais do que isso, eles ainda possuem o objetivo de ampliar o entendimento sobre a própria evolução climática dos planetas rochosos, que incluem a Terra.
(Por Arthur Almeida)

