O hábito de recolher conchas na praia pode ter raízes muito mais antigas do que se imaginava até então. Um estudo publicado nessa segunda-feira (6) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences indica que os neandertais (Homo neanderthalensis) e os humanos modernos (Homo sapiens) compartilharam, durante mais de 20 mil anos, o costume de colecionar um mesmo tipo de concha marinha sem utilidade prática aparente.
A descoberta foi feita na caverna Üçağızlı II, no sul da Turquia, na região do Levante, área que conecta a África à Eurásia e que desempenhou papel central na expansão dos primeiros hominídeos para fora do continente africano. Além de reforçar a hipótese de que as duas espécies não apenas coexistiram, esse estudo ainda aponta para a possibilidade de que eles tenham dividido certos aspectos de sua cultura.
Conduzida por especialistas da Turquia, do Japão e da França, a pesquisa analisou fósseis, ferramentas de pedra e centenas de conchas encontradas no sítio arqueológico. Entre elas, destacou-se a espécie Columbella rustica, um pequeno molusco cuja concha não apresenta valor alimentar significativo nem uma função prática conhecida. Justamente por isso, sua recorrência chama a atenção dos pesquisadores, que o interpretam como possível indicativo de prática simbólica.
“Pensando que a sobrevivência e a obtenção de alimentos eram literalmente questões de vida ou morte, o foco compartilhado em uma concha marinha não utilitária é extremamente revelador”, afirma Naoki Morimoto, professor da Universidade de Tóquio e autor correspondente do estudo, em entrevista à revista Discover. “Isso demonstra que, mesmo sob intensas pressões de sobrevivência, ambos os grupos atribuíam grande valor a comportamentos potencialmente simbólicos”.
Mesma preferência por uma única concha
Segundo os pesquisadores, uma das maiores surpresas do estudo foi perceber que neandertais e humanos modernos não apenas usavam conchas, mas pareciam escolher repetidamente o mesmo tipo de Columbella rustica. Esse padrão sugere que a preferência não era casual e pode refletir hábitos aprendidos, transmitidos e reconhecidos socialmente ao longo do tempo.
“Essa descoberta nos obriga a reconsiderar a natureza das fronteiras culturais e talvez as capacidades cognitivas entre diferentes grupos humanos no Levante”, indica Morimoto. A fala do pesquisador reforça que o interesse do estudo não está apenas no objeto encontrado, mas no que ele revela sobre a forma como diferentes populações humanas atribuíam valor a certos elementos do ambiente.
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Até então, muitos arqueólogos tratavam esse tipo de comportamento como uma marca distintiva dos Homo sapiens. A nova pesquisa, porém, enfraquece essa separação rígida ao sugerir que neandertais também participavam de práticas que iam além da sobrevivência imediata. Isso não significa que os dois grupos pensassem exatamente da mesma forma, mas sugere que a fronteira cultural entre eles pode ter sido mais porosa do que se imaginava.
Os autores ressaltam que ainda não é possível provar como esse comportamento surgiu. Uma hipótese é que neandertais e humanos modernos tenham desenvolvido o hábito de forma independente. Outra, considerada plausível pelos pesquisadores, é que ele tenha sido transmitido por contato direto entre os grupos, por meio da observação, da convivência ou da aprendizagem social ao longo de milhares de anos.
Novas visões sobre os neandertais
Por mais que o intercâmbio cultural permaneça uma hipótese, o sítio arqueológico oferece uma das evidências mais promissoras para investigá-la, justamente porque reúne vestígios atribuídos às duas espécies em um mesmo contexto arqueológico. Vale destacar que o estudo também dialoga com descobertas anteriores.
Em 2018, pesquisadores relataram na revista Science Advances evidências de que neandertais utilizaram conchas marinhas, pigmentos e possíveis recipientes feitos de conchas na Cueva de los Aviones, na Espanha, em registros datados entre 115 mil e 120 mil anos atrás. A nova pesquisa amplia esse conjunto de evidências ao mostrar que esse tipo de comportamento também ocorreu em um local onde neandertais e humanos modernos viveram em diferentes momentos de uma longa ocupação.
Além das evidências genéticas que demonstram que as duas espécies tiveram descendentes em comum — fato comprovado pela presença de DNA neandertal em muitas populações atuais —, Üçağızlı II acrescenta um novo elemento à história da evolução humana: a possibilidade de que tradições culturais também tenham circulado entre diferentes espécies humanas.
Se essa hipótese for confirmada por futuras pesquisas, a imagem dos neandertais e dos primeiros Homo sapiens deixará de ser apenas a de grupos que se encontraram e se cruzaram biologicamente. Eles também poderão ser vistos como comunidades capazes de compartilhar costumes, preferências e formas de atribuir significado a objetos do cotidiano, muito antes do surgimento das sociedades humanas como as conhecemos hoje.
Por Arthur Almeida

