Muita gente tem o hábito de colecionar objetos, sejam eles selos, discos, imãs de geladeira ou mesmo alguma seleção mais excêntrica – como, por exemplo, meias ou globos de neve. Esse curioso costume não era exclusivo dos seres humanos modernos: a ciência já tinha indício de que ancestrais da nossa espécie, como os neandertais, costumavam colecionar conchas, por exemplo. Agora, um estudo de janeiro publicado na revista científica Archaeological and Anthropological Sciences indica que eles também gostavam de guardar crânios e chifres de animais.
Pesquisadores de diferentes instituições na Espanha descobriram que neandertais coletavam e posicionavam chifres e crânios de animais de forma organizada no interior da caverna Des-Cubierta, localizada na região central da Península Ibérica.
Um conjunto de 35 crânios de grandes mamíferos comprovou que o grupo teve o costume de reunir esses tipos de ossos durante um longo período, especificamente entre 135 mil e 43 mil anos atrás.
Separação entre ação natural e humana
A caverna Des-Cubierta, identificada pela primeira vez em 2009, não mostrou logo de cara sua função de ter sido um antigo depósito. A descoberta dos crânios foi somente divulgada em 2023, e, em um primeiro momento, os pesquisadores descreviam o acúmulo dos materiais na caverna como “caótico”, sem um padrão específico.
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Uma vez que a caverna sofreu diversos desmoronamentos ao longo dos milênios, a equipe buscou investigar o papel dessas perturbações na disposição dos objetos, indo além do estudo de neandertais.
Com o mapeamento das exatas posições de pedras, ossos e ferramentas, foi possível diferenciar os depósitos gerados por fragmentos geológicos e aqueles formados por crânios, chifres e ferramentas, que tinham padrões espaciais diferentes. O contraste apoia a teoria de que houve uma atividade deliberada dos neandertais em organizar os materiais. Realmente como humanos modernos tratam uma coleção.
“Essa distinção é essencial em arqueologia porque a compreensão do comportamento humano no passado exige, primeiramente, identificar quais partes do registro arqueológico foram criadas por pessoas e quais foram moldadas pela natureza”, diz Lucía Villaescusa, pesquisadora da Universidade de Alcalá e principal autora do estudo, em entrevista ao site Live Science.
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Peças do mundo neandertal
Outra informação descoberta pelos cientistas é que os materiais arqueológicos foram posicionados em áreas específicas da caverna de forma repetitiva ao longo de um extenso período de tempo, mesmo que esse ainda não possa ser estimado. Isso sugere um padrão de comportamento que foi passado através de gerações e que necessariamente está associado a motivações de sobrevivência.
Os resultados do estudo colaboram para a ampliação do conhecimento de práticas e transmissões culturais de comunidades neandertais. Entender como esses colecionadores organizavam seus achados é mais uma etapa na identificação de diferenças e semelhanças entre os nossos ancestrais pré-históricos.
(Por Fernanda Zibordi)

