Reproduão/HNT

CAROLINA AMORIM

Os pais se separaram, mas prometeram maturidade, diálogo e parceria. Não queriam repetir as disputas que viveram na própria infância. No início, tudo parecia organizado.

Com o tempo, o pai passou a tentar compensar a ausência física sendo sempre disponível. Evitava frustrações, cedia aos desejos dos filhos, inclusive onde sabia que precisava sustentar limites. Dizia sim quando queria dizer não, com receio de “perder espaço” na vida deles.

A mãe, sobrecarregada pela condução do cotidiano, oscilava entre controle e culpa. Tentava manter a casa de pé, mas temia ser vista como a mãe rígida, a que cobra demais, enquanto o pai parecia sempre mais leve e permissivo.

Ambos acreditavam estar fazendo o melhor dentro do contexto vivido. O que não percebiam é que disputavam, silenciosamente, um lugar de aceitação.

Famílias não se desorganizam por falta de amor, mas por ausência de liderança adulta.
Quando os adultos não resolvem suas próprias tensões, a parentalidade se transforma em campo de negociação emocional. O filho passa a observar o clima da casa, ajustar comportamentos, escolher com quem falar e o que dizer. Não por estratégia consciente, mas porque percebe que o eixo não está firme.

Pais imaturos não são os que erram mais, mas os que não conseguem sustentar uma direção comum, independentemente do estado civil. Ainda ocupados com dores da relação, culpas mal elaboradas e conflitos não resolvidos, deixam de liderar juntos.

Nesse espaço vazio, o jovem assume funções que não lhe pertencem. Torna-se mediador, regulador emocional, termômetro da casa. A família até funciona, mas vive em tensão constante. Não descansa. E todos perdem.

Autoridade parental não é concordância perfeita entre adultos, mas alinhamento de direção. Quando isso falta, o filho ocupa o lugar de equilíbrio — e isso tem custo. Um custo silencioso, que aparece em ansiedade difusa, insegurança ou maturidade precoce demais.

Famílias não se desorganizam por falta de amor, mas por ausência de liderança adulta. Crescer como pai e mãe é aceitar atravessar desconfortos próprios para não transferi-los adiante. É sustentar direção mesmo quando a história pessoal ainda pede ajustes.

Esse é um novo estágio da parentalidade.

E ele começa quando o adulto decide amadurecer antes de exigir equilíbrio do filho.

Repense-se.

(*) CAROLINA AMORIM é Educadora Parental e Mentora de Famílias | Especialista em Desenvolvimento Humano.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias News MT

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