O peixe cabeça-de-pedra também chama a atenção por seu tamanho diminuto. Ele se alimenta especialmente de camarões e caranguejos bentônicos — Foto: Vince Golder/iNaturalist

Algumas pessoas parecem nascer com talentos musicais, enquanto outras vão adquirindo habilidades ao longo de anos de prática. Mas o que ocorre quando a capacidade de “fazer um som” vem junto a uma adaptação evolutiva? Seria uma ótima pergunta a se fazer a um cabeça-de-pedra (Bothragonus swanii), raro peixe que consegue bater sua cavidade craniana como um tambor para se comunicar com outros seres marinhos.

O peixe percussionista, que habita a costa do Pacífico de países como Estados Unidos e Canadá, foi objeto de estudo de Daniel Geldof, um biólogo marinho da Universidade Estadual da Louisiana (LSU) interessado em entender o motivo do chamativo buraco dentro da cabeça do animal.

Desbanando teorias que sugerem que a cavidade seria um mecanismo de camuflagem, um órgão sensorial ou até um aprimoramento da audição do peixe, o pesquisador realizou diferentes tomografias que revelam um conjunto de costelas capazes de “batucar” cabeça do peixe para emitir som.

Um buraco cheio de personalidade

Além da estranheza, o cabeça-de-pedra é um peixe extremamente raro de ser encontrado. Medindo cerca de nove centímetros, ele se camufla com sua carapaça em terrenos rochosos, muitas vezes fugindo da vista de mergulhadores. Nas buscas de encontrar um espécime novo para sua pesquisa de mestrado, Geldof não obteve sucesso e utilizou como amostras de cabeça-de-pedra encontrados alguns anos antes de iniciar seus estudos.

Com tomografias computadorizadas de alta resolução, o pesquisador criou modelos 3D detalhados da anatomia do peixe – até mesmo de nervos individuais –, o que permitiu a visualização da posição do primeiro conjunto de costelas do animal, que ficam mais próximas à cavidade craniana.

“Na base dessas costelas, há tendões e músculos que sugerem que o peixe pode mover as costelas de forma deliberada e rápida contra a base óssea da fossa craniana – como baquetas. Geldof descobriu que o cabeça-de-pedra parece usar o buraco na cabeça como um tambor, criando vibrações que se propagam para baixo. Isso faz sentido, já que esse peixe geralmente repousa no fundo do mar”, afirma o comunicado da LSU.

Pesquisador da Universidade de Louisiana realizou tomografias computadorizadas em espécimes vivos para observar em detalhes as propriedades anatômicas do buraco na cabeça dos cabeça-de-pedra — Foto: Divulgação/Universidade Estadual da Louisiana
Pesquisador da Universidade de Louisiana realizou tomografias computadorizadas em espécimes vivos para observar em detalhes as propriedades anatômicas do buraco na cabeça dos cabeça-de-pedra — Foto: Divulgação/Universidade Estadual da Louisiana

Para que essa barulheira?

De acordo com estudos anteriores e descobertas do próprio pesquisador, essa habilidade do cabeça-de-pedra seria usada para a comunicação com outros membros da espécie e talvez para afastar ameaças. É uma estratégia evolutiva inteligente, já que as águas intertidais – áreas de costa entre as marés, onde os cabeça-de-pedra vivem – são extremamente barulhentas.

“Como esses peixes vivem em ambientes muito ruidosos e acusticamente complexos em poças de maré rasas, eles se adaptaram para se comunicar através do solo ao invés da água”, diz Geldof.

Mesmo que ainda ninguém tenha realmente observado um cabeça-de-pedra batucando sua própria cabeça, as evidências do estudo colaboram para que a teoria do “peixinho roqueiro” se comprove. Pesquisadores relatam que ao pegar o animal na natureza, tem-se a sensação de estar segurando um celular vibrando. Um baterista incansável no meio do oceano.

(Por Fernanda Zibordi)

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