O espinossauro, um dinossauro não-aviano, pode ter tido glândulas de sal em uma posição semelhante a dos únicos dinossauros vivos hoje: as aves — Foto: Alessandro Paterna e Mario Falasca

Também nunca tinha tido esse questionamento, leitor da GALILEU. Acontece que estamos tão habituados com a “ordem natural” dos dinossauros terrestres ou voadores que nos esquecemos dessa terceira via. Mas os cientistas não se esqueceram, pelo contrário: observaram um grupo de iguanas marinhas e notaram que, assim como o Espinossauro, elas expelem um fluído pelas narinas.

Um novo estudo publicado na revista Historical Biology em 22 de maio sugere que essa substância era o excesso de sal produzido por glândulas especializadas. O que surpreende, no entanto, é a possível ligação das iguanas com o Espinossauro, aquele dinossauro que não sai da boca dos cientistas. É quase uma briga da ceia de natal: seria ele um predador aquático ou um predador terrestre?

Seja qual for a resposta, ainda há um consenso: trata-se do maior dinossauro carnívoro que já existiu, chegando a 17 metros de comprimento e oito toneladas. Mas outros aspectos da sua vida – ou melhor, dos seus fósseis – continuam a ser alvo de discordâncias. Como a sua reconstrução que, entre 2014 e 2024, foi refeita cerca de seis vezes, todas com contradições relevantes.

Considerado um caçador semelhante a uma garça que espreitava perto da água, evidências de ossos excepcionalmente densos convenceram alguns cientistas a abandonarem a ideia de que o Espinossauro seria terrestre e o considerassem um caçador aquático. Eles também foram convencidos de que esse animal passava um tempo considerável embaixo d’água, já que possuíam dentes perfeitos para agarrar peixes e uma cauda em forma de remo. Bem conveniente, não é?

Lágrimas salgadas

Mas viver como um animal aquático não é moleza, já que além das dificuldades normais de predadores e presas – pelo menos o Espinossauro está em vantagem nessa – é preciso superar o sal.

Apesar de conter sódio, um elemento essencial para regular o equilíbrio dos fluídos corporais (a conhecida osmose das aulas de Biologia) e transmitir impulsos nervosos nos animais, seu excesso pode ser fatal. Esse é o motivo para que algumas aves marinhas e alguns répteis tenham glândulas especializadas em filtrar o sal do sangue e, assim, o eliminarem.

O Espinossauro foi um gênero de dinossauro que viveu entre 100 e 94 milhões de anos atrás, com destaque para a região que hoje compreende ao norte da África — Foto: Wikimedia Commons
O Espinossauro foi um gênero de dinossauro que viveu entre 100 e 94 milhões de anos atrás, com destaque para a região que hoje compreende ao norte da África — Foto: Wikimedia Commons

O problema é que essas glândulas são tecidos moles, o que as torna difíceis de serem mantidas tão bem preservadas quanto os ossos em registros fósseis. Ainda assim, é possível encontrar evidências dessas estruturas, localizando indicações de sua antiga presença.

No caso do Espinossauro, os cientistas procuraram por canais ou depressões cranianas que poderiam ter abrigado uma glândula de sal e as pistas anatômicas mais fortes foram encontradas acima do olho do animal. Isso significa que está em uma posição semelhante a das glândulas de sal das aves marinhas.

Na água ou no ar?

As bizarrices do Espinossauro são inúmeras, a começar pelo formato da sua cabeça que, agora os cientistas entenderam, pode ser explicado pela presença das glândulas de sal.

Além disso, as suas semelhanças com espécies de iguanas e aves marinhas sugere que tenha existido uma evolução convergente, isto é, onde a mesma característica – no caso, as glândulas – surge em dois grupos não relacionados. Você deve estar se perguntando como isso é possível, não é? Bem, eles ocupavam nichos semelhantes, no caso, o ambiente aquático, onde precisaram encontrar uma solução para o excesso de sal.

Em entrevista à IFL Science, Andrea Cau, da Universidade de Bolonha (Itália), afirmou que a “descoberta é uma oportunidade rara de conectar algo da fisiologia – neste caso, a função da glândula e seu papel na regulação do sal – e da ecologia – o ambiente e a dieta – de um dinossauro extinto”. Para ele, as revelações foram além do que quaisquer outras já documentadas por paleontólogos, já que reconstruir características fisiológicas da biologia extinta é desafiador.

É possível que aspectos da anatomia do crânio dos dinossauros não fossem compatíveis com sistemas eficientes de excreção de sal, tornando frustradas as tentativas de ocupação dos ambientes aquáticos — Foto: Historical Biology
É possível que aspectos da anatomia do crânio dos dinossauros não fossem compatíveis com sistemas eficientes de excreção de sal, tornando frustradas as tentativas de ocupação dos ambientes aquáticos — Foto: Historical Biology

Mesmo que os cientistas tenham conseguido descobrir onde as glândulas estavam posicionadas, Cau disse que ainda não foi descoberta o tipo de pele que cobria a cabeça do dinossauro. O que se sabe sobre a sua verdadeira forma, na verdade, é bem pouco e apenas uma coisa é quase garantida: o posicionamento das glândulas de sal não influenciaram em nada a sua aparência.

Mas, lembra das iguanas marinhas? Elas sim têm os seus rostinhos alterados por essas estruturas. Após espirrarem as suas secreções salinas, alguns resquícios podem não só permanecer, mas também endurecer, formando uma crosta branca que se acumula e chega a parecer uma “peruca de sal”.

Cau explicou o motivo das glândulas serem esteticamente relevantes para apenas um dos animais: “na iguana marinha, as glândulas ficam dentro do crânio, enquanto no Espinossauro, as glândulas ficavam acima do crânio – em depressões acima dos ossos e, em vida, cobertas de pele”.

Talvez realmente tenha faltado estilo ao Espinossauro, mas não há como negar que ele é o grande influenciador das discussões paleontológicas. Agora, as descobertas levam os pesquisadores a sugerirem que as glândulas de sal poderiam ajudar a explicar por que não existiram dinossauros marinhos ou totalmente aquáticos. E, quem sabe, elas indiretamente nos mantiveram no comodismo de que esses gigantes seriam apenas terrestres ou aéreos.

(Por Júlia Sardinha)